The Beatles 60 anos (12) – os bastidores da mais explosiva turnê musical do século vinte

“Senti uma pancada como se fosse desferida com um martelo na minha nuca e cai no meio de um corredor, fui pisoteado por garotos e garotas que usavam meu corpo como degrau para ficar o mais próximo possível do palco. Tentei me levantar usando meu gravador como escudo, mas cada vez que ficava em pé, eu era mandado de volta à lona, no meu caso, de sólido concreto. Me arrastei para uma fila de poltronas, e sentei no colo de um garoto meio pesado, que se levantou e me cedeu o lugar. Ele estava tão absorto, que se esqueceu do cone de sorvete que segurava na mão, que estava derretendo e pingando na braguilha da minha calça. Eu estava respirando com dificuldade, com uma luxação na nuca, e, molhado e pegajoso pelo sorvete derretido.

Tentando controlar a respiração, suando em bicas, com medo de outro surto, olhei para a esquerda e vi uma jovem chorando. Sua perna estava torcida, e ela se contorcia de dor. Seus cotovelos estavam esfolados até os ossos. Quando os maqueiros chegaram constataram que ela estava com a perna quebrada. Antes que a gente se desse conta, a arena tinha se transformado num centro de triagem. A garota foi levada para fora, e no lado direito das poltronas enfermeiras carregavam três moças que desmaiaram. Garotos caíam de exaustão e o calor era irradiado do solo”.

O texto entre aspas acima não é o relato de uma manifestação política, nem de um show de punk rock nos anos 70, ou de alguma catástrofe. É a descrição da estreia da primeira turnê dos Beatles nos Estados Unidos, em agosto de 1964, no Cow Palace, em San Francisco, na Califórnia, contada pelo americano Larry Kane, único repórter que participou das turnês completas do grupo nos EUA em 1964 e 1965 (…)

Esta é a 12ª matéria da série The Beatles 60 anos, postadas no blog telestoques, para marcar as seis décadas do primeiro single que o grupo lançou pela EMI. Decidi terminar com a inacreditável turnê de1964, contada por quem esteve nos shows e nos bastidores, fazendo parte da entourage, a convite do empresário Brian Epstein.

Ninguém fora do círculo íntimo de John, George, Ringo e Paul acompanhou com total liberdade o cotidiano dos Beatles feito Larry Kane, editor de notícias da WFUN, pequena emissora de rádio de Miami. Quando foi escalado para cobrir a passagem dos Beatles pela Flórida, em fevereiro de 1964. I Want to Hold Your Hand estava em primeiro lugar nas paradas pop dos EUA, o grupo foi convidado para ser entrevistado no programa Ed Sullivan. Fizeram quatro entrevistas, todas com pocket shows, vistas por 150 milhões (a primeira teve 70 milhões de espectadores). Também realizaram alguns shows, em Nova Iorque, outro em Washington D.C, mas ainda não era uma turnê. Foram testes para examinar o terreno em que pisavam. O terreno foi aprovado, mesmo que os quatro integrantes ainda parecessem inseguros de que realmente tivessem conquistado a América. Larry Kane, no livro Ticket to Ride (2002), lembra que o show do Cow Palace teve a maior plateia até então encarada pelo grupo, 17 mil pessoas.

SATIRICON

John Lennon, em uma entrevista, comparou as turnês dos Beatles ao filme Satiricon, de Frederico Fellini, com a diferença de ter quatro músicos como protagonistas. Em Atlantic City Kane conta que foi avisado por Derek Taylor, assessor de imprensa do quarteto, que haveria uma festinha na suíte em que estavam John, Paul, George e Ringo:

“Foi a primeira vez em que testemunhei um grupo de profissionais entregues na porta dos Beatles. O que levanta a questão: o que um jornalista deve fazer? Pegar uma delas não seria uma opção. Em vez disto, encarei outro dilema que vai ao âmago da velha pergunta: o que é notícia? Onde começa e termina os limites da privacidade? Em 1964, eu sabia ser impensável noticiar isto. Além do que eu não teria como confirmar, se algum homem ali presente pegou alguma, embora alguns estivessem como casais. Não havia provas, mas bastante evidências. Além disto, a confiança e abertura que os Beatles nos confiaram, nos recebeu em seu mundo privado. Como a gente poderia trai-los noticiando isto?”.

No mês em que viajou com o quarteto pelo EUA (com idas ao Canadá), os Beatles estiveram sobre o fio da navalha. Num país de preconceitos e puritanismo, qualquer deslize sexual poderia interromper a triunfante carreira do grupo no mercado musical mais importante do planeta. Kane estava no seu apartamento, no hotel em Las Vegas, tentando relaxar, quando Mal Evans, o faz tudo da banda, pediu que ele lhe fizesse um favor. Duas adolescentes estavam no quarto de John Lennon. Escapuliram da mãe, que tentava a sorte no cassino do hotel. O favor era acalmar a mãe, e evitar que ela chamasse a polícia.

O envolvimento com garotas de 14 e 15 anos seria um escândalo que arruinaria a carreira dos Beatles. Larry Kane conta que conversava com a mãe tentando convencer que elas só subiram para pegar autógrafos e tirar fotos. E temia por si próprio, não sabia exatamente o que acontecera entre as meninas e John Lennon. Ele conversava com a senhora, quando a porta do elevador se abriu, e de lá saíram as garotas com um policial. O episódio parou por aí.  Kane aventa a possibilidade de a mãe ter sido recompensada por Brian Epstein a não levar o caso adiante.  

George Harrison, atirandosua dose de rum no rosto de um jornalista, no Whisky-a-Go-Go em L.A

Os quatro rapazes fofinhos, desejado e amado pelas adolescentes, sempre simpáticos e espirituosos nas coletivas, talentosos autores de canções que iam muito além do que se vira até então no pop rock. Mesmo que parte do repertório da primeira turnê fosse de hits já conhecidos pelos americanos, quase todos com artistas negros. Não era bem assim. Em Los Angeles, quando se apresentaram no Hollywood Bowl, John, Paul, George, Ringo e a entourage que os acompanhava, incluindo os poucos jornalistas nela admitidos foram ao Whisky-a-Go-Go, casa noturna badalada, cuja atração era Johnny Rivers. Com eles algumas garotas, incluindo a atriz Jayne Mansfield, um sex-simbol. da época, colada em Lennon.

L.A é cidade de celebridades, mas os quatro Beatles eram a celebridade mundial da vez. Um radialista insistiu em colocar o microfone do gravador o mais próximo possível de Jayne e John, que desferiu um tapa na mão que segurava o microfone. Logo em seguida foi a vez de George Harrison. Irritou-se com um fotógrafo que sapecava flashes no seu rosto. Harrison pediu que ele parasse, mas o fotógrafo continuou. Só parou quando levou um banho de rum com Coca-Cola, o drink preferido de George. Desta vez, não foi possível evitar que o episódio fosse noticiado.

COADJUVANTES

Os shows dos Beatles tinham duração média de meia hora, às vezes com o acréscimo de cinco minutos. Assim em cada apresentação havia shows de abertura. Na turnê de 1964, a tarefa coube a cantora Jackie deShannon, The Righteous Brother, Bill Black Combo, e Clarence “The Frogman” Henry. Clarence “The Frogman! Henry tinha o apelido no nome, “O Homem Rã”, porque brincava com a voz, com um timbre assemelhado ao do coaxar do batráquio. Ele abriu para os Beatles em parte das apresentações. Conheceu os quatro em Liveerpool, e m1961, ainda na época de Peter Best, quando fez shows pela Inglaterra.  Jackie deShannon participou da maioria dos shows do Fab Four, 1964. Ela fazia um relativo sucesso nos EUA e Canadá como cantora, porém seu talento estava mais para a composição (é dela o megahit de Kim Carnes, Bete Daves Eyes, de 1981). Tem músicas gravadas por dezenas de intérpretes e grupos, The Byrds, The Searchers, Van Morrison, etc.

Na estreia da turnê, no Cow Palace, em San Francisco, a jovem (20 anos) Jackie de Shannon se assustou. Adentrou o palco em meio à gritaria de milhares de garotos e garotas. Quando começou a cantar, o coro de “queremos os Beatles” se repetia como mantra, no mais alto volume. Era constrangedor, no entanto, valia a pena, pela vitrine proporcionada por estar na turnê dos Beatles. Nas duas, a única atração que conseguiu aplacar a gritaria e impaciência da plateia foi Cannibal and The Headhunters, de presença de palco eletrizante. No show no Hollywood Bowl, em 1965, o empresário dos Beatles notou que o grupo mexia com o público mais do que deveria. Pediu ao empresário de Cannibal and The Headhunters que desacelerassem.

Entre as inúmeras contribuições dos Beatles para o show business está a qualidade do som ao vivo. Na turnê de 1964, eles faziam apresentações no piloto automático, não havia retorno, e os gritos impediam que se escutassem. Nesse tempo já havia o comercio de gravações bootlegs (grosso modo, piratas), daí a vigilância de Brian Epstein para que os shows não fossem gravados nem filmados. Várias vezes mandou que o grupo permanecesse no camarim e só saíssem quando as equipes de TV tivessem ido embora. É este o motivo de ser ter muito poucas imagens da turnê mais badalada da história da música pop.

Em Atlanta, na turnê americana de 1965, finalmente encontraram engenheiros de som que entendiam do assunto. Rebatedores acústicos foram instalados pelo estádio, em locais estratégicos, uma técnica que funcionou e passou a ser empregada em eventos com grandes plateias. Quem esteve à frente da equipe técnica foi  um cara chamado Paul Drew, diretor de um emissora loca, e co-patrocinador do concerto.

O espaço de tempo entre as duas turnês foi de menos de um ano, mas Larry Kane observa, em Ticket to Ride, que John, Paul, George e Ringo lhe pareceram muito mudados. E não apenas musicalmente. Na turnê de 1965, John Lennon continuava espirituoso, porém dessa vez mais sarcástico. Também emitia opiniões sobre conflitos raciais e políticos.

Antes da turnê de 1965, os Beatles estiveram nas Bahamas, locação de cenas do filme Help. As gravações foram realizadas com os quatro chapados de maconha, a droga que consumiram em proporções razoáveis durante a turnê. Na seguinte. e última, eles estariam viajando em LSD. Larry Kane registra em Ticket to Ride a noite final da triunfal turnê de 1964, no hotel Riviera Idlewood, próximo ao Aeroporto JFK (recém-batizado com o nome do presidente, assassinado em novembro de 1963. Chamava-se antes Aeroporto Idlewood).

Depois de um show no teatro Paramount, em Time Square, houve uma festinha privada no Riviera. Estavam lá jornalistas, ingleses e americanos, garotas, amigos. Kane bebericava um drink, ao seu lado estava John Lennon. O telefone tocou, Lennon atendeu, falou um pouco, olhou para Larry Kane e pediu-lhe um favor: conduzir até a festinha, uma pessoa que se encontrava na recepção do hotel:

“Um homem baixinho, vestindo calça jeans amarrotada, com uma case de guitarra conversava com um cara no balcão da recepção. Fui até lá disse que tinha vindo para levá-lo ao andar em que os Beatles estavam.

– Meu nome é Larry Kane. O cara da guitarra me disse:

– Sou Bob Dylan.

Então aquele era Dylan, pensei, O Senhor Marijuana. Nunca me confirmaram se ele realmente apresentou a maconha aos Beatles, no início da turnê, no hotel Delmonico, em Nova Iorque. Subimos pela escada, e o levei até John, cujo rosto iluminou-se quando viu Dylan entrando. John foi com ele para um quarto, onde Ringo já se encontrava. Paul estava conversando com uma turma, uma linda morena ao seu lado. Logo os dois sumiram. Ficamos nós, que cobríamos a turnê, Derek e Bess (os assessores de imprensa do grupo), fumando, bebendo, repassando histórias dos shows. Por volta das quatro da manhã, a festa terminou.

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