Pedro Luis e Yuri Queiroga em releituras turbinadas de canções antigas que refletem o Brasil de agora

Terral (Deck), disco do carioca Pedro Luiz e o recifense Yuri Queiroga, estreou turnê nacional, em julho, no Palco Pop do Festival de Inverno de Garanhuns, um dos melhores shows dos que foram ali apresentados, e não foram poucos. O festival teve tantos palcos quanto o Rock in Rio. A dupla conseguiu transpor pro show a sonoridade do disco, com a colaboração de um convidado especial, MPC. Iniciais de Music Production Center, grosso modo, um armazenador de sons, equipamento fundamental para o desenvolvimento do rap, e usado por nomes como Drake e DJ Shadow.

Terral traz um repertório de releituras de canções antigas, boa parte delas espelha o Brasil de agora, e de sempre, a exemplo de Miséria, e Miséria S.A, a primeira do álbum de estreia de Pedro Luis e A Parede (1997), e segunda gravada por O Rappa no álbum Rappa Mundi (1996).

Yuri Queiroga, compositor, músico, produtor, acrescenta o “cantor” ao currículo. Ele divide os vocais com Pedro Luís em Terral. Escolado em estúdios de gravação, que domina como poucos na música popular brasileira, Yuri reveste de barulhinhos bons a música de Pedro Luis que, quase sempre, foca a cornucópia de mazelas deste país: “E quem te disse que miséria é só aqui?/Quem foi que disse que a miséria não ri?/Quem tá falando que não se chora miséria no Japão?/Quem tá pensando que não existem tesouros na favela?”, versos de Miséria no Japão. Uma das exceções aos temas engajados, é a bela e pop canção de amor, Calcanhar (Manuca Bandini/Yuri Queiroga) lançada por Ylana Queiroga em 2013.

Terral é o vento que sopra da terra para o mar (ou rio). O som se desloca em ondas no ar.  Pedro Luis e Yuri Queiroga arvoram-se a surfistas e levam seu som a deslizar em ondas eletroacústicas com a colaboração do vento terral. Entregaram ao publico um disco com uma maioria de canções de denúncias, mas em que a letra e música são indissociáveis. É também celebração de efemérides: Pedro Luis (só ou com parceiros), completa 25 anos de carreira, contados a partir do disco de estreia com a Parede, Astronauta Tupy (1997), enquanto Yuri Queiroga inteira 15 anos de produção musical. Do álbum inaugural da Plap regravaram a citada Miséria no Japão, e Seres Tupy, do refrão: “De Porto Alegre ao Acre/ a pobreza só muda o sotaque”.

Pedro Luis e A Parede foi ym dos grupos mais impactantes do final da década no rock brasileiro, ecoando a influência de Chico Science & Nação Zumbi na percussão pesada. Amigo e parceiro de Lula Queiroga, cantor e compositor recifense, Pedro frequentava a casa e estúdio de Lula, tio de Yuri. A empreitada Terral surgiu naturalmente entre os dois, a partir de um convite feito a Pedro Luis por André Midani (falecido em 2019) para um evento chamado Projeto Inusitado, apresentado no Museu das Artes, no Rio. Pedro convidou Yuri Queiroga para tocarem juntos o que seria o álbum Terral. O trabalho estendeu-se ao longo de quatro anos. Adentravam o estúdio, quando as agendas permitiam. Uma demora que até colaborou para a sofisticação com que Terral chegou ao público. O disco teve sofisticados clipes de cada canção com imagens subaquáticas do acervo dos mergulhadores Ricardo Gomes e Doug Monteiro, editadas por Jéssica Leal. O álbum tem participações especiais da cantora portuguesa Marta Ren, e da argentina Dai-Ojeda. No mais é a orquestra dos dois sozinhos que, sem maiores pretensões, fizeram um dos melhores discos desta safra de 2022.

(na foto, Pedro Luis e Yuri Queiroga, no Festival de Inverno de Garanhuns)

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