João Barone: “Quem fez a fórmula do Paralamas do Sucesso jogou fora”

O Paralamas do Sucesso aporta nessa sexta-feira, 23 de setembro, no palco do Teatro Guararapes, com o show da turnê Clássicos, iniciada em 2 de outubro de 2021, no Espaço das Américas, em São Paulo. O grupo completou 40 anos, a contar da definição da formação, com Herbert Vianna, João Barone e Bi Ribeiro. O repertório do show, como o título dá a dica, é uma retrospectiva enfatizando as canções mais conhecidas de uma banda cuja série de sucessos foi aberta, em 1983, com Vital e Sua Moto, citação a Vital Dias, primeiro baterista do grupo.

João Barone entrou no Paralamas em 1982, em lugar de Dias. No ano seguinte, o trio gravou uma demo, exaustivamente tocada na Rádio Fluminense, o que o levou à gravação de um compacto, e o LP Cinema Mudo, pela EMI. O resto é história.

João Barone concedeu uma longa entrevista a telestoques.com, contando um pouco da trajetória da banda, influências, relembra a dobradinha com Chico Science & Nação Zumbi em palcos da Europa, fala de política, (do tempo da ditadura à atual conjuntura), e explica porque ele e os outros integrantes do Paralamas do Sucesso mantêm-se por tantos tempo juntos, numa amizade que se torna mais sólida a cada ano.      

TELESTOQUES – Ano que vem, Cinema Mudo, o primeiro álbum do Paralamas completa 40 anos, como você avalia estas quatro décadas do grupo e qual a maior contribuição que deu a música brasileira?

BARONE – A gente não está comemorando a data cheia dos 40 anos, porque ainda não chegamos lá. A gente tem uma pré-história de 1981, quando se conheceu, Bi, Herbert e eu. Vital ainda estava na banda. Em 1982 entrei definitivamente na banda. 1983 é uma data mais formal porque foi quando gravamos nosso primeiro disco. Talvez a gente celebre esse momento de alguma maneira, diferente, especial. Está todo mundo com 40 anos, o rock Brasil é de 1982. Tem banda que gravou disco depois da gente, e tá celebrando 40 anos. É legal, é saudável, a gente não tem nem um pouco de arrogância em estar juntos por 40 anos. Ficamos muito feliz por estar com o mesmo ímpeto, o mesmo gás, por conta da nossa entrega, a nossa paixão pelo que faz, adorar o que a gente faz. Gravamos um monte de discos, só quando tinha assunto ia lá e gravava. Os Paralamas são notadamente uma banda de estrada, que gosta de fazer show.  Estar juntos este tempo todo com o mesmo ímpeto é uma coisa fora de comum, e a gente preza isto muito. Não queremos servir de exemplo pra nada, mas sabemos que o que a gente faz é muito precioso e valioso pra nós. A gente continua seguindo adiante enquanto tiver público para o nosso trabalho.

TT – Qual a química empregada para o trio permanecer junto estes anos todos? A harmonia é contínua ou houve momentos em que o Paralamas chegou perto do fim?

Barone – Definitivamente não existe uma formula garantida para uma banda, um artista fazer sucesso. Há padrões que você vai atrás, mas nada é garantido pra você conseguir o sucesso definitivo no trabalho.  São muito aspectos para alguma coisa fazer sucesso, carisma, originalidade, a música, muitos. Quem fez a fórmula do Paralamas jogou fora. Nossa banda tem um negócio único, uma identidade própria, dificilmente uma banda dura tanto tempo junto e acho que Paralamas tem este aspecto, uma das características da banda.

O fato de estarmos juntos até hoje, só mostra não teve nenhuma tensão interna que pudesse implodir a nossa união, muito pelo contrário , fomos sedimentando a nossa estrutura interna. O fato de estarmos juntos se deve muito a termos um empresário que é nosso amigo, o Zé Fortes, tem até o documentário Os Quatro Paralamas (de Roberto Berliner e Paschoal Samora, 2020). Zé começou verde como a gente. O fato de nós nunca termos nos preocupado com esta coisa de contrato, grana, agenda, nos poupou daquela etapa mais desgastantes das bandas com seus empresários.

O Paralamas nunca esteve perto de acabar, nem mesmo com aquele dramático acidente com o Herbert, que nos fez ficar ainda mais juntos. Foi a única vez onde a banda perigou acabar. Se não tiver os três Paralamas, ou os quatro, no caso do Zé, o grupo acaba. Pra nossa felicidade vimos o Herbert se reerguer, ajudando a gente a continuar, e continuamos continua com todo o gás.

TT – O Paralamas viu surgir outros sons na música brasileira, feito o manguebeat nos anos 90. Nesta terceira década do século 20, a música mais consumida do país é o sertanejo, enquanto o pessoal, digamos, cabeça, vai de rap, funk, fusão de reggaton, com rap, letras que versam sobre as pautas atuais, racismo, feminismo, lbgtqi+. A canção ainda tem vez no pop/rock?

Barone – As pessoas se esquecem de que música é uma forma de arte, e arte é impetuosa, quer causar comoção, e a música é uma forma de causar comoção nos sentimentos das pessoas. Uma coisa rarefeita, você não pega, não é sólida, você aprecia, pela audição, depois do visual das mensagens passadas. A música moderna, do século 20 pra cá, passou a ser um reflexo da sociedade em que a gente vive. Depois que o rock veio com esta coisa da revolta, estes aspectos todos da juventude ter a sua voz. Viemos de uma sociedade repressora, e isto se reflete em vários aspectos. Nosso caso, no Brasil, os ritmos, a música mais popular é um retrato da sociedade, não tem que tá reprimindo isto. Cada pessoa tem seu gosto. No caso do rock, que teve muita evidencia nos anos 80, na nossa geração, existiu uma cobrança pela renovação. Esta renovação mudou a fórmula, há muita coisa sendo feita. Você tem que ir atrás. Desses lugares, dessas expressões. O rock está aí, nos festivais muito concorridos, sempre tem uma demanda de rock. Tem um nicho muito especifico. Um equívoco estar comparando o rock com A, B ou C. Acho que o importante é a gente reconhecer que as bandas que vieram no renascimento do rock brasileiro dos anos 80 ainda estão aí, e são representantes do rock, não precisa tirar um coelho da cartola o tempo todo. No começo dos anos 90, dos anos 2000, muitos novos representantes do rock brasileiro surgiram com muita força, com muita expressividade. Não precisa estar medindo com uma régua de mais sucesso, mais gente que vai ao show. Isto não é necessário. O importante é ver um panorama onde existem muitas coisas acontecendo, uma diversidade muita boa, um publico especifico. O Paralamas tem seu público. As outras bandas, A, B, C tem seu público, uns maiores outros não tão grandes., Isto não significa que é bom ou que é ruim. Importante é ter este diversidade. Se você olhar bem, a gente e tem uma diversidade muito legal no rock brasileiro, muita coisa legal sendo feita. Tem pra todo mundo, gosto pra tudo. Inclusive agora neste momento da pandemia diminuindo, tem uma demanda muito grande de shows, agendas lotadas. A gente está cruzando o tempo todo com as bandas irmãs, bandas novas, eventos superlegais. Um dia toca um, no outro dia toca outro. Enfim é bom a gente ver com bons olhos que existe uma cena muito promissora das bandas de rock brasileiras, de ontem e de hoje. Sem nostalgia. A gente não tem nostalgia nenhuma. Continuamos tocando as nossas músicas, que não perderam a data de validade. Músicas que fizemos anos atrás continuam valendo até hoje.   

TT – O Paralamas manteve um bom relacionamento com Chico Science & Nação Zumbi, o grupo que abriu o caminho para o rock brasileiro dos anos 90, inclusive fizeram shows junto na Europa, em 1996, algum grupo atual com que o Paralamas faria uma dobradinha assim?

Barone – O encontro com a Nação foi muito especial também. A gente fez muitos shows com outras bandas, com Barão, com os Titãs, mas este com a Nação Zumbi foi mágico. Na época a gente estava com aquela herança da nossa redescoberta da música brasileira, junto com a música negra brasileira, o reggae, a música africana, o próprio maracatu, que a Nação reinventou no manguebeat. Esse encontro foi muito especial, dificilmente a gente conseguiria refazer este evento com outa banda. Tocamos com Los Hermanos, com a Legião, uma longa lista de encontros superlegais, mas com a Nação rendeu uma turnê Europa, como representantes da nova música brasileira. Acho que o Bi Ribeiro poderia puxar da cartola o nome de alguma banda nova boa que ele conheça. Eu colocaria no tabuleiro fazer uma turnê com Black Alien. O Bi já trabalhou com ele, os Paralamas já chamaram Black Alien para uma participação especial. Talvez a gente fizesse uma coisa superlegal com ele. As pessoas não lembram muito, mas os Paralamas têm uma levada meio de hip hop, desde o álbum Big Bang, a gente estava tentando algumas coisa do rap jamaicano, dos DJ toasters, tem muita coisa legal sendo feita no hip hop.  

TT – Vocês têm público fiel, um repertório de vários sucessos que tocaram, e tocam, muito no rádio e TV, como é a relação dos Paralamas a com geração século 21?

Barone – O que a gente observa muitas vezes é que existe uma curiosidade na nova galerinha pra uma banda que tenha um trabalho com esta longevidade como os Paralamas, e outras bandas de nossa geração. Você vai ao show, tem muita gente nova lá, muitas vezes pai que leva o filho. O que a gente tem pra dizer ainda está encontrando eco na moçada. Existe um trânsito muito bom com o pessoal que nasceu nos últimos vinte anos, nosso trabalho tem um eco muito grande com pessoas que não acompanham nosso trabalho desde o inicio, tem este respeito das gerações novas, talvez pelo discurso das letras. O Paralamas ganhou notoriedade pelas em performances ao vivo. A gente dá o recado legal, isto acaba tendo algum motivo de efeito na geração atual, e é pra nós uma grande injeção de autoestima.

TT – A partir de Selvagem, de 1986, o grupo passa a gravar composições suas e de Bi Ribeiro, sós ou em parcerias com Herbert. Você, inclusive faz o vocal de Melô do Marinheiro, parceria com Bi. Por que nem você nem Bi gravaram disco solo?

Barone – Quem é o compositor da banda? É o Herbert. Eventualmente a gente tem uma ou outra parceria, mas é pontual. Herbert é o cara que fala pela banda, é a cara da banda. Tem este papel de ser o letrista, e é um músico completo. Estudou violão clássico, estudou bossa nova, sabe de harmonia. Eu e o bi somos músicos intuitivos. A gente foi criando a nossa necessidade musical com a mão na massa, construímos nossa musicalidade em tempo real. Só comecei a tocar bateria quando começaram os Paralamas, o Bi também. Enfim, a gente foi ganhando esta cancha, esta vivência, na vera, na real. Então as parcerias acontecem esporadicamente. Ultimamente, a gente tem participado mais do processo criativo musical. Herbert faz uma letra, a gente acaba ajudando a dar um formato musical. É tudo muito espontâneo, não temos uma receita de bolo pra fazer música. Vai fazendo no arrepiômetro.

TT – No início era muito comentada a influência de The Police no Paralamas, mas havia também muita influência do pessoal da gravadora 2 Tones, The English Beat, Specials, Selecter. Quem influenciou mais o Paralamas no início da carreira?

Barone – Os Paralamas tiveram um pouco esta fácil comparação com o Police pelo fato de ser um trio também. Na verdade a gente usou o Police como referencia de música atual. A gente sempre ouviu muitas bandas dos anos 60, Led Zeppelin, Hendrix, passando pelos Mutantes, Rita Lee, Raul Seixas. Mas, de fato, quando começamos nossa parada, tínhamos o Police como referência estética, e aí foi tentando chegar perto daquele padrão musical quer representava muito pra gente, e fomos encontrando nossa própria mão, estilo, persona musical. Este processo foi muito espontâneo de achar nossa identidade musical. Uma coisa que ninguém contesta é a capacidade do Herbert escrever estas músicas incríveis que até hoje a gente canta. O Passo do Lui fez muito sucesso, Selvagem, tudo que vem depois. Os Paralamas explorando essas várias musicalidades e nuances, do rock, do reggae, uma hora indo muito fundo na música afro, tentando explorar todas as matizes musicais que conseguisse. E foi isso. A gente gostava muito do movimento pós-punk, da new wave, de bandas inglesas, Specials, Selecter, Beat, especialmente bandas americanas muito legais, o Talking Head, pela qual a gente tinha uma admiração gigantesca, e fomos, aos pouquinhos, amadurecendo esta busca, para uma sonoridade própria, com a desenvoltura que o Herbert foi ganhando como compositor.

TT – Fala um pouco do projeto do Police de que você participa.

Barone – Não é cover do Police. Este projeto é extra Paralamas, onde toco bateria, Rodrigo Santos, ex-Barão Vermelho, e com carreira solo, toca baixo e canta. O guitarrista é ninguém menos do que Andy Summers, do Police. Ele tinha ficado amigo do Rodrigo, por conta de outros trabalhos e. por feliz coincidência, resolvemos fazer este grupo juntos. Ano que vem vamos fazer a quarta turnê do grupo, chamado Call the Police (Chama a Polícia). Fazemos turnês quando conseguimos concatenar as nossas agendas com o Call the Police, o Andy tem os projetos dele. Ano que vem a gente vai voltar.

TT – O Paralamas começou ainda durante a ditadura militar, como foi conviver com o regime naquela época, de censura e tal, e como está sendo conviver com o atual governo, com o presidente tece elogios à ditadura, e cerceia o alcance da cultura à lei Rouanet, cria um clima de medo na sociedade?

Barone – Ainda sem disco, a gente gravou uma fita demo, e mandamos pra Radio Fluminense, que começou a tocar nosso cassete. Teve uma música censurada. Era um pouco explícita, sobre um general lá na Polônia, que baixava o pau nos sindicatos, na época do Lech Walesa, Solidarnosc. Essa letra, quem ouvia, achava que o Herbert estava falando do Figueiredo, entregando o ultimo general do governo militar. Nunca gravamos, deixamos pra lá. Passamos por poucas e boas. Como era difícil a época, anos 60, 70, a inflação, eram tudo favas contadas, precisava contar os feijões. Havia sempre essa sensação: por que a gente não consegue ser uma sociedade generosa com o grosso da população? Por que é tão difícil viver no Brasil, ter um transporte público, sistema de saúde legal, de educação legal? Não era questão de ficar rico, ser um burguês. Uma vivencia justa que desse um alento pra viver. Com o tempo, fomos vendo como o brasileiro foi se virando nos trinta. O Brasil tem um povo otimista. Nos anos 80, a democracia chegou com tudo. Infelizmente a gente ainda não aprendeu que o preço de uma sociedade justa é a vigilância com o nosso sistema político, afinal a gente paga imposto pra caramba. Esse pessoal devia devolver esta dinheirama toda que se paga em beneficio pro povo, mas a gente não tá vendo isso acontecer, a politica tá muito queimada. Precisa canalizar estes recursos. Mas a gente tá vendo este processo muito truncado. E vê agora um retrocesso desgraçado, pessoas se mobilizando em prol de uma intervenção militar, uma coisa que não tem cabimento, e só mostra como a gente deixou de investir na educação. Mesmo que sejam 20, 30 por cento da população falando um devaneio desses, pedindo a volta do regime militar, estamos andando pra trás. Um atestado de como gente tá mal. Vimos agora uma mobilização da carta pró democracia, que todo mundo assinou . Acreditamos que o acidente de percurso que foi este governo, vai acabar. Não se pode dar carta branca pra um governo que só destrói. faz coisa errada, em vez do que tem que ser feito. Fica aí em devaneios loucos, neuróticos, neurastênicos, isto não pode acontecer. o Brasil precisa voltar ao seu caminho virtuoso, a gente não pode ser um país desgraçado. Tudo indica que a gente vai se reencontrar. Às vezes é meio acidentado, morreu muita gente na pandemia.  Mas está se dando voz pra pessoas que não estão nem aí pro verdadeiro processo democrático. Esta gente sempre esteve aí, a gente tem que lutar contra isso, a gente não pode regredir. 

TT – – O Paralamas tem uma discografia longa, um rosário de sucessos, alguma música que seja a sua preferida? E a pergunta clichê: que música não pode faltar num show do Paralamas?

Barone – Na nossa turnê atual, batizamos este show de Paralamas Clássicos. A gente roteirizou um monte de músicas conhecidas do Paralamas, uma sequencia de música que imaginamos interessante pro show, mais ou menos, uma receita que temos. Demos uma sacudida nesse repertório, fazendo bloco estilísticos ao longo do show. Um bloco a todo vapor, depois tira o pé um pouco, tem a balada, a parte do reggae. O final, esperamos que sempre seja pra cima, apoteótico. Íamos estrear quando começou a pandemia. Passou um ano e meio para começar. Vamos chegar ao Recife com a peixeira afiada, é sempre bom ir ao Recife, e encontrar nosso público, sempre altíssimo astral, então é isso, Paralamas Clássico, vai ser lindo.

SERVIÇO
Os Paralamas do Sucesso (mais os músicos João Fera, teclados, Monteiro Jr, sax e Bidu Cordeiro, trombone). em “Paralamas Clássicos”
Dia 23 de setembro, às 21h30
Teatro Guararapes: Centro de Convenções de Pernambuco
Informações: (81) 3182.8020

Ingressos:
Plateia especial: R$ 220 e R$ 110 (meia)
Plateia: R$ 190 e R$ 95 (meia)
Balcão: R$ 160 e R$ 80 (meia)
À venda no site Bilheteria Digital, lojas Nagem e na bilheteria do teatro

Realização: Art Rec Produções, Estandarte Eventos e Tampa Entretenimento

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