Crônica: Carlos Drumond de Andrade e o autógrafo em Copacabana

Ontem, 31 de outubro de 2022, foi aniversário de 120 anos de nascimento de Carlos Drummond de Andrade, poeta máximo, cronista maior. No longínquo 1977 fiz minha primeira viagem ao Rio. Me hospedei num apê na Constante Ramos, em Copacabana. Uma tarde, tava eu sentado num boteco perto do prédio, e passou por mim um senhor, magrinho, elegante, leve e lépido, aos 75 anos. Perguntei ao dono do boteco se aquele era Drummond. Ele confirmou, e acrescentou que quase todo fim de tarde o poeta fazia uma caminhada no calçadão.

Não ia perder a oportunidade de pedir um autógrafo. No dia seguinte pela manhã comprei um livro de Drummond, um seleta da Editora Sabiá, que pertencia a outro grande da literatura nacional, Rubem Braga. Naquela tarde, o poeta não foi à caminhada. Na tarde do outro dia, sim. Passou tão circunspecto, como se estivesse nas nuvens. Me intimidei. Não tive coragem e interrompê-lo pra pedir que assinasse meu livro.

Vi Carlos Drummond de Andrade umas três ou quatro vezes. Tava inclusive deixando de conhecer os pontos turísticos do Rio por causa dessa (curta) obsessão. Nunca me vinha a cara de pau de chamar por seu nome, me aproximar e sacar o livro da minha bolsa. Na véspera da viagem de volta, falei pra mim mesmo; ´”É hoje, ou nunca”. Fui pro boteco, tomei três lapadas caprichadas de Underberg. Drummond não passou pra caminhada. Me demorei no boteco. Nunca mais o vi. O Hoje perdeu pro nunca.  

CODA

Anos depois, entrei numa feijoada , salvo engano, que vivo salvo enganando-me, a do Nadinho, na Domingo Ferreira, e me deparo com João Cabral de Melo Neto, com uns parentes e amigos. Pensei logo em Drummond. Teria eu coragem de pedir um autógrafo a João Cabral? Não tive. Se estivesse só, talvez me atrevesse. Não estava, não me atrevi. Eis que faço uma visita à Livraria Síntese, de Suely e Murilo, ali na Riachuelo, perto da Sete de Setembro. Compro o livro Agrestes – Poesia (1981/1985), de João Cabral de Melo Neto. Abro o livro em casa e tenho uma surpresa agrdável. Meu exemplar era o de nº 246, de uma edição limitada de 500 exemplares numerados e autografados pelo autor.

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