Leno Azevedo, ídolo da jovem guarda, em 1970 peitou a gravadora, encarou a censura, tirou Raul Seixas da caretice, mas foi subestimado até o final da vida

Gileno Osório Wanderley de Azevedo, o natalense Leno, falecido na quinta-feira, 8 de dezembro, aos 73 anos, foi um dos mais subestimados nomes do rock brasileiro. Certamente, pelo retumbante sucesso que obteve na era do iê-iê-iê, na dupla com Lilian Knapp. Tudo bem, as canções do álbum de estreia, de 1966, era recheado com a ingenuidade que ainda pairava no rock nacional, que lá fora já atingira a maioridade desde 1965, com os álbuns Rubber Soul, dos Beatles, e Highway 61 Revisited, de Bob Dylan.

No entanto, a temática da música do LP, Leno & Lilian está de acordo com a idade dos dois. Leno tinha 17 anos, Lílian, 18. Mesmo assim, ambos já desenvolviam um trabalho autoral, compondo e fazendo versões. É do disco de estreia a balada Devolva-me (Renato Barros/Lilian Knapp), anos mais tarde incorporada à MPB, com a regravação de Adriana Calcanhotto. Mais duas canções foram hits nacionais, Pobre Menina (Hang on Sloopy, Bert Russel/Wess Farrel, versão de Leno), e Eu Não Sabia que Você Existia (Renato Barros/Tony).

Embora continue sendo um dos nomes mais lembrados da Jovem Guarda, a dupla desfez-se antes de lançar o segundo álbum. “Aconteceu o desgaste. A gente era muito criança, brigávamos muitos, e por bobagens. Não estávamos preparado para um sucesso grande e tão rápido. Leno quis cantar sozinho, e paramos, antes quando ainda fazíamos o Não Acredito, nosso segundo LP, que foi lançado quando a dupla já não existia. Terminaram sem a gente”, conta Lílian (em entrevista ao titular deste blog). No entanto, no blog da paulista Lucinha Zanetti, o mais bem informado sobre a Jovem Guarda, o motivo teria sido outro: “Não foi Leno quem rompeu com Lílian. Na verdade, foi Evandro Ribeiro, da CBS, porque a cantora costumava faltar aos programas de televisão marcados pela CBS para divulgação da gravadora, programas estes que eram previamente agendados por Othon Russo e não poderia haver falhas”.

 Leno lançou dois bem sucedidos LPs solo, em 1968 e 69. Em 1970 começou a gravar o que seria o álbum Vida e Obra de Johnny McCartney, um guinada de 180 graus na sua carreira, que passava por longe dos iê-iê-iê românticos que pontuaram até aí sua música. Cantava sobre reforma agrária, imposto de renda, drogas, repressão. Claro, esbarrou na censura federal, e na de seu Evandro Ribeiro, o todo poderoso chefão da CBS. Um trabalho sofisticado com Raul Seixas, então conhecido por Raulzito, assinando com Leno meia dúzia das 13 faixas. Uma delas de Marcos e Paulo Sérgio Valle, que entrou ocasionalmente. Leno, na época, namorava com a filha de Marcos Valle, conheceu a música Pobre do Rei, e pediu pra gravar. Gravou e foi uma das que a censura vetou.

Raul também toca no álbum, que teve participações de A Bolha (que acompanhou Gal Costa em seu primeiro show solo, em 1969), de Los Shakers (grupo mais famoso do Uruguai), e de Renato e seus Blue Caps, e backing vocal dos Golden Boys. O pessoal da CBS não quis o álbum, e  alertou a Leno que iria apagar o tape de Vida e Obra de Johnny McCartney. Ele passaria cinco anos sem lançar disco. Voltaria em 1976, ainda na CBS, com Meu Nome É Gileno, um dos melhores, e mais subestimados, discos de rock nacional dos anos 70. Leno lançou seu último disco por uma grande gravadora há 40 anos, o álbum Encontros no Tempo, que encerrou seu contrato de 23 anos com a CBS.

 Depois de gravar um único disco pela recifense Polydisc em 1989, Coração Adolescente, Leno abriu seu próprio selo, o Natal, nome da cidade em que nasceu, e na qual voltou a morar no início dos anos 2000, e onde faleceu. Foi por este selo que lançou seus últimos discos. O primeiro dele, o lendário álbum proibido e alegadamente destruído pela gravadora. No entanto, graças ao faro para descobertas imprevisíveis, o produtor e pesquisador carioca Marcelo Fróes encontrou nos arquivos da CBS o tape Vida e Obra de Johnny McCartney, que finalmente foi lançado, pelo selo Natal.

“Quando Raul entrou no Vida e Obra de Johnny McCartney, uma coisa que os fãs dele não querem aceitar. O careta ali era ele. Eu já estava na frente em 70, eu que bolei o disco todo, capa, letras, arranjos. Sentado no Arco-íris fui que fiz a música, metade da letra pedi pra ele terminar a letra. Ele adorou, disser que foi a primeira vez que boto minha ideias pra fora. O pessoal acha que não. Eu é que era o caretão, o romântico, por causa da Lílian. Já teve fã que escreveu na Internet: Um disco de Raul sem Raul.Tá brincando? Eu botei o meu na reta, fui censurado, bati de frente com a gravadora. Claro que Raul ajudou com empolgação, tocou violão terminou algumas letras. Mas a história é outra”. Áudio de Leno para a citada Lucinha Zanetti, que conversava com frequência com ele.

Talvez se Vida e Obra de Johnny McCartney tivesse vindo à tona em 1971, o rumo da carreira de Leno fosse outro. Até o final da vida ele não conseguiu se desvincular do curto período em que fez dupla com Lílian, nem de ter sido um dos ídolos do iê-iê-iê com escalação assegurada no programa Jovem Guarda.      

2 comentários em “Leno Azevedo, ídolo da jovem guarda, em 1970 peitou a gravadora, encarou a censura, tirou Raul Seixas da caretice, mas foi subestimado até o final da vida

Adicione o seu

  1. em cd tenho Leno ao vivo ” Coisas que a gente viveu” revivendo a JG e cantando algumas suas que foram sucessos com outros e o melhor de Leno , que inclui Luar do sertão com Dominguinhos na sanfona.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: