Dia do Forró: entrevista com Jacinto Silva, que foi um dos grandes do gênero

No Dia do Forró, também o dia do aniversário de Luiz Gonzaga, refresco a memória do pessoal, reproduzindo uma entrevista com Jacinto Silva, feita em 1998, quando assinou contratao com a gravadora Paradoxx, pela qual lançou o CD Só Não Dança Quem Não Quer. Um dos nordestinos que mais entendia de forró, sobre o qual, com perdão do clichê, falava de cátedra. Jacinto faleceu em 2001.

À entrevista, pois

O alagoano Jacinto Silva foi da geração forrozeiros que entrou em cena logo em seguida a qual Jackson do Pandeiro e Luis Gonzaga. Nos anos 60, formou na seleção de ouro do forró da CBS, ao lado de lendas como Messias Holanda, Marinêz e sua Gente, Abdias, Messias Holanda, Elino Julião, Coroné Ludugero, Trio Nordestino. Por volta de 1974, as grandes gravadoras perderam o interesse pelo forrozeiros nordestinos. Muitos passaram a lançar discos esporadicamente ou simplesmente abandonaram os estúdios. É o caso de Jacinto Silva. Na época desta entrevista com 65 anos, 37 de casado, mais de duzentas composições, vinte LPs, Dois CDs (um lançado apenas na França). Seu último disco foi bancado por ele mesmo, e produzido por  Zé da Flauta. .

– Jacinto, você tem quantos anos de carreira?

JACINTO – Comecei a gravar em 1959, na gravadora Mocambo. Gravei Justiça Divina (sempre que fala de uma música cantarola quase todas as estrofes). No outro ano vim com Chora Bananeira, Aquela Rosa. Meus primeiros sucessos eu fiz aqui no Recife, principalmente na gravadora Mocambo.

– Depois você passou para a CBS, participou da série Pau-de-Sebo, o que era um privilégio.

Jacinto – É, gravavam na CBS, Coronel Ludugero, Ótropi, Abdias, Marinez e sua Gente, Trio Nordestino, Osvaldo Oliveira, João do Pife e Jacinto silva. Quando morreu o saudoso Coronel Ludugero, surgiu um imitador o Coroné Ludru, e aí juntou-se a caravana da CBS, Jackson do Pandeiro e Elino Julião. depois saiu o Jackson do Pandeiro, o Coroné Ludru saiu, eu sai, Abdias então criou outro tipo de disco, O Quebra Pote.

– Como você começou a cantar?

Jacinto – Sou alagoano da cidade mais bonita do Estado, Palmeira dos Índios. Comecei a cantar ao seis ou sete anos. Lembro que cantava tanto que aquilo incomodava a audição da minha mãe, ela pedia pra eu calar. Este tipo de música que canto, eu me espelhei no saudoso Jackson do Pandeiro, porque na época eu cantava de Bob Nelson e Luis Gonzaga, Ary Lobo.

Foi quando apareceu Jackson apareceu cantando Forró em limoeiro, Sebastiana. Aí sai de Alagoas, para ir para o Recife, depois fui pra Caruaru, Gravei uns 78rpm na Mocambo, e em seguida fui pra CBS. Parti para outras firmas que não me deram a divulgação que eu precisava. Banquei um disco, parei. Ainda fui representar Caruaru, em Nancy, na França. Agora assinei um contrato de três com a gravadora paradoxx. Acredito que daqui pro fim do ano o disco sai.

– Jacinto, relembre alguns dos teus sucessos.

Jacinto – Gravei (cantarola) Chora bananeira/ bananeira chora/ chora bananeira que o seu amor foi embora (parceria com Onildo Almeida). Depois : “Aquela rosa, foi uma jura que eu fiz/aquela rosa.” Depois, Rosa Branca, depois Quero ver Rodar, roda roda minha gente. Depois Oh, Zezé, foi uma infinidade de sucessos.

– Mas aí o forró, que tocava muito, acabou indo para os horários da madrugada pelas rádios, como aconteceu isto?

Jacinto – O forró sempre foi discriminado, especialmente o forró chulé, o pé-de-serra. Gravei na CBS de 63 a 1973, conheci todo mundo, Renato e seus Blue Caps, Lafayette, conheci Roberto Carlos. O produtor de Roberto Carlos na época era Evandro Ribeiro, depois Othon Russo, superintendente da gravadora. Repara a diferença, o meu produtor era Abdias, um tocador de oito-baixos, o de Roberto o superintendente da empresa.

Mas existe também uma jogada, não posso dizer quem nem quem não, mas existem pessoas que chegam assim pra determinados apresentadores de programa e diz assim: “isto aqui é um cigarro pra você e tal. Toque esta música que no fim do mês eu estou aqui de volta e deixo um negocinho com você”. Muitas vezes o apresentador pega aquela música, uma música que não foi feita com inspiração foi fabricada. Como ele tá levando qualquer coisa, um pedacinho de jabá, então ele força aquela música, chama-se um sucesso forçado. Então ele não vai deixar de tocar aquela música, pela qual tá recebendo um pedaço de jabá, pra tocar Jacinto Silva de quem não está recebendo nem uma peneirinha de farinha.

– O que você acha do forró-cearense?

Jacinto – O forró cearense, ele veio trazer para o Brasil, especialmente para o Nordeste, muita alegria, porque ele reativou o nome forró.

– Mas você acha que aquilo é forró?

Jacinto – Não. É o forró que eles cantam, que dizem que é forró. Agora não é o forró que cantava Luis Gonzaga, que cantava Jackson, que canto eu, que canta Silvério, ou Genival Lacerda. Só sei que eles estão se dando bem financeiramente

– Voltando a sua carreira, você gravou muitos compositores, gravou também João do Vale?

Jacinto – Olha nunca gravei, conhecia João pessoalmente, gostava até daquela voz rouca dele. Fazendo ele era muito bom, mas cantando eu dizia: “Tu canta ruim demais”, ele ria muito quando eu dizia isto.

– Quais os grandes compositores de forró que você gravou?

Jacinto – Gravei bons compositores, como Rosil Cavalcanti, Antonio Barros, Onildo Almeida, Juarez Santiago, quero até pedir desculpas a alguns que não me recordo.

– Mas existem poucos grandes compositores de forró assim hoje em dia, né?

Jacinto – Olha fazendo este tipo de música que faz Onildo Almeida, que faz Antonio Barros, Agripino Aroeira, são poucos.

– Você é um dos últimos cantores da linha de Jackson, daqueles que sabem que o forró é uma grande variedades de ritmos. Quase ninguém mais sabe o que é um rojão, por exemplo. Mas você admite que sofreu muita influência de Jackson, né, o que mais lhe admirava nele?

Jacinto – Jackson do Pandeiro era um senhor cantor. Nunca vi o que vi Jackson fazendo. Por exemplo, você pedia pra ele cantar uma música. Se pedisse pra ele repetir a música ele repetia, agora com a divisão diferente. Eu canto a mesma música com duas divisões, mas Jackson conseguia cantar com três divisões. Era difícil se aprender uma música com Jackson cantando. A maneira de dividir dentro do ritmo, era um negócio.

– Muitos dos ritmos do forró perigam acabar porque este pessoal que tá começando, acha que forró é uma coisa só

Jacinto – É você agora tocou numa tecla importante.(jacinto mostra, tamborilando com os dedos na mesa, as nuanças do ritmo dos compassos do xaxado, o rojão, baião, marcha-de-roda, a polkinha). O coco de roda por exemplo é diferente de outro coco, porque nele é preciso que a rapaziada responda o coro, para que o cantor diga os versos (canta “Ô Amaro, Ô Amaro”)

– Além de você quantos cantores hoje sabem desta variedades do forró?

Jacinto – Poucos, Azulão, Messias Holanda, Genival Lacerda, Silverio, Biliu de Campina, olha se reunir no Brasil inteiro dá uns dez. Agora cantoras, tem Marinêz, a irmã da Marinêz, Marinalva, Cremilda, Anastácia, deve ter algumas outras boas que a gente não conhece.

– Quando você estava gravando mais, ainda havia aquela coisa de se comprar música?

Jacinto – Existia, esta sempre existiu. Quando cheguei no Rio existia muito. Eu vendi a Genival Lacerda umas quatro músicas – eu quero que ele diga que é minha mentira.

– Diz algumas

Jacinto – Tapioca, vendi a Genival esta, e vendi: “Cadê meu bem”. Também “Vou dançar ciranda, no clarão da lua/ lá na beira do mar”. Vendi também a Genival : “Oh, Helena, venha cá meu bem”.

– Você dava a parceria?

Jacinto – Não, eu vendia mesmo. estava lá no Rio de Janeiro, precisando. Vendi a Genival Lacerda, fiz uma música, Moça de Hoje, vendi a parceria a Ary Lobo, que gravou.

(Na foro, Jacinto Silva entre João do Pife e Jackson do Pandeiro, possívelmente na pensão de Dona Biu, no Brás, em São Paulo).

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