Vicente Barreto, o desconhecido mais famoso do Brasil, em Paleolírico é arqueólogo de suas memórias musicais

Em 1993, o vereador de Salvador Silvoney Salles, conseguiu que fosse aprovada uma lei municipal, de sua autoria, que obrigava as emissoras AM, FM e de TV de citar os autores das músicas que tocassem.  Uma ou outra obedeceu à lei. Compositores raramente são citados pelos meios de comunicação de massa. Para o público a música é do intérprete.  Asa Branca deve ter batido recordes de execução nesta semana em que se celebrou os 110 anos de Luiz Gonzaga, sem que se citasse o nome de Humberto Teixeira, autor da letra.

Ironicamente é da Bahia, o compositor Vicente Barreto, um dos mais importantes da MPB, também intérprete, que lançou, em setembro, Paleolírico, o 12º título de sua discografia.  Tropicana, Pelas Ruas que Andei, Tirana, Dia de Cão, Cabelo no Pente. O que há em comum entre estas canções, além de terem sido gravadas por Alceu Valença? Todas têm como parceiro Vicente Barreto. (que assina outras parcerias com Alceu). Mas ele é parceiro também de Tom Zé, Chico César, Paulo César Pinheiro, Celso Viáfora, Jorge Mello, Carlos Pita, Hermínio Bello de Carvalho, Carlos Fernando, Zeh Rocha, para citar parte dos parceiros de Barreto.

Paleolírico (Sesc SP) tem acentuado sabor pernambucano, com as participações de Alessandra Leão, que canta em quatro faixas, e é parceira de Vicente Barreto em uma delas, Quando Cheguei , Rodrigo Caçapa, arranjador de cordas na faixa título, e em Forrozim (parceria com Paulinho Pedra Azul), e Miró da Muribeca, cuja voz abre, com o poema Quantos Sacos de Cimento, a faixa Flor de Cimento (parceria com Zeca Baleiro). 

Desempenha papel primordial no álbum, o paulistano Manu Maltez, a quem realmente cabe o termo multiartista. Pintor, desenhista, cineasta, designer, poeta e compositor, Maltez é parceiro de Vicente Barreto em três faixas, assina a arte da capa e encarte de Paleolírico, e também o texto introdutório em forma de poema. Vicente Barreto esclarece particularidades de Paleolírico, homenagem e reminiscência da cidade natal, no interior baiano, Conceição do Coité, mais precisamente do distrito de Salgadália (ele cresceu em Serrinha, a 155 km da capital)    

Nesse caminho de retorno às paisagens da infância, me deparei com a ideia de um instrumento que existe no Nordeste, chamado sanfona de oito baixos, ou sanfona Pé de Bode. Essa sonoridade, que eu ouvia desde criança, é parte de uma atmosfera presente nas minhas lembranças mais antigas, relacionadas à música e aos cantadores, e foi a partir dela que eu comecei a compor esse disco. A sanfona Pé de Bode foi o mote e o esqueleto desse novo álbum. E eu trago a dinâmica dessa sanfona para o meu violão”.

Exatamente a dinâmica, porque a sonoridade é contemporânea. Forrozim, por exemplo, é realçada pelos talentos de pai e filho: o violão de Vicente Barreto, e a guitarra de Rafa Barreto, mais os violinos de Ricardo Hertz. É a faixa mais balançada do disco, com Vicente Barreto e Alessandra Leão num dueto azeitado. Já Sanfoninha Pé de Bode, tem as vozes de Vicente e Manu. Com um violão numa levada bem Gilberto Gil na fase Expresso 2222. Roda de Capoeira (com Paulo César Pinheiro) fecha o disco com um som de Salvador, na base do paranauê.

O violão de Vicente Barreto é a cor determinante da paleta de  Paleolírico, harmonizando com os instrumentos distribuídos ao longo do disco violino e, o violino, ou rabeca, de Ricardo Hertz (Rafa Barreto também toca rabeca), clarinete e clarone, por Maria Beraldo, piano contrabaixo, de Manu Maltez, e uma cozinha percussiva de Bruno Prado, Caé Rolfsen (também nos teclados), Victória dos Santos e Maurício Badé.

Um disco impregnado de Bahia, mas sem estereótipos, e de temáticas diversificadas. A arqueóloga franco-brasileira Niède Guidon, fundamental para a preservação do Parque Nacional Serra da Capivara, no Piauí, é homenageada na faixa batizada com seu nome. Paleolírico contém onze faixas (uma instrumental), com canções dessas que terminam e ficam na cabeça, como insumo para ideias e reflexões. Ou como ressaltam os versos de Palavra Vital (parceria com Rafa Barreto): “Sem palavra vital não se tem/nem vintém, nem canção, nem ninguém”

(foto: José de Holanda)

Um comentário em “Vicente Barreto, o desconhecido mais famoso do Brasil, em Paleolírico é arqueólogo de suas memórias musicais

Adicione o seu

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: