Anna Paes interpreta a música de Guinga, em disco de clima camerístico, acompanhada pelo compositor ao violão

Carlos Althier de Souza Lemos Escobar, carioca da Zona Norte, é um nome tão pouco conhecido, para a imensa maioria dos brasileiros, quanto o apelido com que assina suas composições: Guinga. No meio musical, no entanto, é unanimidade. Há quem o considere o maior compositor da MPB. Durante 31 anos exerceu a profissão de dentista.  Somente aos 41 decidiu dedicar mais tempo às suas composições. Não por acaso, o primeiro disco que estampa seu nome artístico na capa foi gravado, em 1991, por um selo criado por um músico, o Velas, de Ivan Lins. Raros estreantes tiveram em sua estreia participações de astros do porte de Chico Buarque, Leila Pinheiro, Cláudio Nucci, Ivan Lins, Zé Renato ou Leny Andrade.

Embora não o tenha descoberto, Elis Regina atraiu atenção à música de Guinga ao gravar, com Cauby Peixoto, a sua Bolero de Satã (Paulo César Pinheiro é o parceiro), no álbum Elis, Essa Mulher (1979). Também não por acaso, a obra de Guinga é visitada e revisitada por intérpretes que são sinônimo de requinte, a exemplo de Mônica Salmaso, que canta Guinga/Paulo César Pinheiro no repertório inteiro do álbum Corpo de Baile, 2014, Biscoito Fino).

Aliás, Guinga é parceiro de Chico Buarque em Você Você, uma das faixas mais elogiadas do álbum As Cidades (1998). De caminhos harmônicos tão imprevisíveis que Chico teve dificuldade em inclui-la no repertório da turnê do disco. Paradoxalmente, esta sofisticação da música de Guinga foi o que atraiu tantos intérpretes para suas criações, porém ele nunca estudou música, nem lê partituras.
Ao contrário de Anna Paes, com extenso currículo acadêmico, cantora, violonista, e admiradora de Guinga, de quem é parceira, na composição, e no palco. Ela foi responsável pela pesquisa e organização do livro Cancioneiro Guinga – Zaboio (Gilly Music, 2022)
Anna Paes estreou em disco com em 2016 com Miragem de Inaê, com Iara Ferreira. Agora chega ao segundo álbum, pela Kuarup, e a citada Você Você dá titulo ao trabalho dedicado à música de Guinga, que acompanha Anna ao violão. Com produção de Sérgio Lima Neto, Anna e Guinga conceberam um disco intimista, camerístico. Das Onze canções, apenas uma é inédita, Sonhadora, parceria com Paulo César Pinheiro, de 1974. No entanto, as demais são praticamente inéditas. Algumas como Passos e Assovios, parceria com Aldir Blanc, foi lançada em 1979, pela pouco lembrada Cláudia Savaget, ou Valsa Maldita, que até aqui tinha uma única gravação de Márcia, em 1977.

O repertório é dividido em blocos, com dois dos mais constantes parceiros de Guinga, e um com parceiros de uma única música, Zé Miguel Wisnik e Thiago Amud, canções encaixadas entre composições com Paulo César Pinheiro e Aldir Blanc. O resultado geral chega a ser óbvio. Professora de canto, Anna Paes é, ela própria, uma ótima cantora, com pleno domínio de técnicas vocais. Juntem-se estes dotes com o violão e as composições singulares e ecléticas de Guinga, dos poucos autores da MPB que conseguem harmonizar influências de Villa-Lobos e Luiz Gonzaga numa mesma melodia. Não poderia dar errado.  

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