Clarice Assad num inspirado tributo a Milton Nascimento com roupagem jazzística

Milton Nascimento ganhou vários presentes neste 2022, em que completou 80 anos, e anunciou sua despedida dos palcos. Uma deles veio de Clarice Assad, pianista que mora nos Estados Unidos, que reuniu amigos e gravou o álbum A Tribute to Milton Nascimento – Window to the World (Vectordisc Records). Embora não seja muito familiar à maioria dos compatriotas, os Assad formam uma família com um ouvido musical que não é normal. Sérgio (pai de Clarice) forma com o irmão Odair uma dupla de violonista com espaço certo e sabido em Oropa, França e Bahia, a irmã deles, Badi Assad é ótima cantora e exímia violonista, e é igualmente de palcos mais do exterior do que brasileiros.

Clarice vive nos EUA, com reconhecimento nos meios musicais mais sofisticados, gravou com muita gente boa, a exemplo do celista Yo-Yo Ma, e já indicada ao Grammy. Ela é fissurada pela música de Milton Nascimento desde a adolescência. Estava em turnê pela Dinamarca, quando um amigo músico, o baterista Johan Dynnesen, sugeriu que gravassem um disco com composições de Bituca. Oito das nove faixas  do álbum e onze músicas (a primeira delas é um pot-pourri com uma trinca de canções ) foram registradas em uma tarde. Morro Velho, que tem apenas Clarice Assad em voz e piano, foi gravada algum tempo depois.

A rapidez com que as canções foram gravadas não aconteceu por falta de tempo, disponibilidade dos músicos, ou pela intenção do improviso, como se fizessem um disco de um show. Deveu-se ao conhecimento que Clarice Assad tem da obra de Milton Nascimento, com a acompanha desde  criança. Ademais, como espécie de projeto paralelo, há dez anos, ela se apresenta cantando Bituca, em dupla com o percussionista japonês Keita Ogawa (que toca com o Snarky Puppy).

 A seleção traz canções clássica da obra de Milton, e umas poucas menos conhecidas. O pot-pourri que abre o disco traz Caxangá, Fé Cega Faca Amolada e Paula e Bebeto. Parcerias, respectivamente com Fernando Brant, Ronaldo Bastos e Caetano Veloso. O repertório contempla diversas fases, desde Canção do Sal, primeira composição de Milton e gravada por Elis Regina, em 1966, ou Janela Para o Mundo, de Nascimento, de 1997,  um dos discos menos populares de Bituca (ambas em parceria com Fernando Brant).

O que difere este disco, além de um viés jazzístico, é a formação instrumental peculiar: o piano de Alice Assad, o acordeom do italiano Francesco Cali, contrabaixo com Jesper Boldisen, e a bateria do citado Johan Dynnesen (os três residem, na Dinamarca). O álbum tem ainda a percussão de Keita Ogawa, e vozes de Muato (em duas faixas), e de Rodrigo Assad, irmão da pianista (em duas faixas). Uma das melhores faixas é Milagre dos Peixes, que se capricha na arte do improviso, inclusive vocal, com Clarice Assad mostrando que também é boa de jazz cantando.

Interpretações que apontam para a complexidade harmônica, e originalidade das melodias de Milton Nascimento, o único dos grandes da MPB dos anos 60, da geração dos festivais que praticamente não teve influência da bossa nova, aportou no Rio trazendo sua própria bossa. Clarice e a banda encontram soluções bem pessoais para canções manjadas, como é o caso de Nada Será Como Antes, que aceita bem a roupagem jazzística com que o quarteto a reveste.   

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