John Ondolo, seminal guitarrista e violonista da Tanzânia, numa coletânea que aponta para a origem de ritmos do Brasil e dos EUA

No crepúsculo de 2022, me surpreendo com um disco de um guitarrista chamado John Ondolo, ao mesmo tempo um virtuoso e um estilista. O título: Hypnotic Guitar of John Ondolo, lançado pelo selo Mississippi Records, de Chicago. Ondolo nasceu na Tanzânia, em 1917, sua família mudou-se para o Quênia quando ele era criança. Na época, Tanzânia (formada pela união de Tânganica e Zanzibar), Quênia, Uganda, situados no leste do continente africano, na prática eram um só país, colônias inglesas, nem precisava passaporte para ir de um para outra. John Ondolo, aprendeu música numa escola católica, tornou-se hábil em vários instrumentos. Ingressou no exercito colonial, em 1942, deu baixa em 1947, aos 30 anos, que iniciou a carreira de músico profissional.

Na escola lhe foi ensinada a música europeia, dos colonizadores, mas suas raízes continuavam vivas, e ele as levou ao violão, transpondo para os instrumentos técnicas e sonoridades africanas. Seu violão e guitarra soam como o kora, instrumento comum a várias nações africanas, que exige um exímio dedilhado. John Ondolo acrescentou flauta ao trio que o acompanhava nos anos 50 com baixo, guitarra e bateria.  

O que salta à vista, ou aos ouvidos, neste disco é que na diversidade do que ele toca e canta há uma semelhança com ritmos brasileiros, e com o country blues do Sul dos EUA. A faixa que abre o disco, Tumshukuru Mungu (Demos Graças ao Senhor), cantada em suaíli (um dos cem idiomas falados na Tanzânia) poderia ser confundido com um cantador de viola nordestino. Outras faixas lembram música caipira do Sudeste, algumas o blues rural do Delta do Mississippi. Ele usa os acordes abertos, sem pestanas. A forma como toca as cordas fazem com que ressonem como um drone.

Até quando aparentemente faz concessões às danças da moda, ele toca à sua maneira, como acontece em Kenya Twist (gravada em 1964, no Quênia) que só tem de twist o nome, mais se parece um xote tocado com uma viola de repentista. Popular mas com sucesso moderado, John Ondolo, teve seu auge nos anos 60, quando surgiram mais estúdios na África. Ele só começou a gravar em 1959,por um selo da África do Sul, que teve um dos primeiros estúdios do continente.

Com a independência do país da Inglaterra em 1962, subiu ao poder o Partido da Independência, que o governaria até 1985 (em 1964, aconteceu a união com Zanzibar)

John Ondolo passou a trabalhar para o governo, na divulgação do regime, na música e no cinema, o que o popularizou como músico e cantor. Suas composições entraram na trilha de muitos documentários de propaganda oficial. Em 1972, formou uma banda de grande sucesso na Tanzânia, a Vijana Jazz Band, aí já com influências de high life, reggae, juju music, afrobeat também muito interessante, porém menos raiz. A Vijana Jazz Band pertence ao partido que governa o país, e continua em atividade.

 Ondolo parou definitivamente com a música em 1980, quando montou uma empresa de cinema. Circulava pelo país num jipe Land Rover, exibindo filmes em pequenas cidades, com ingressos a preços módicos. Nesse ano aconteceu um grave acidente com o Land Rover, que capotou, e John Ondolo perdeu a mão esquerda. Sem poder mais tocar, ele abriu um centro de artes, muitos músicos da Tanzânia passaram por esta escola. Ondolo faleceu em 21 de março de 208.  

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