Bob Dylan: “Uma grande canção segue a lógica do coração, e permanece na sua cabeça depois que você a escuta”

Bob Dylan não é muito de entrevistas. Nos anos 60, ele brincava com os jornalistas, tirava onda, inventava historias, desconversava, as vezes esnobava, agia com arrogância. Dia19 de dezembro, o Wall Street publicou uma longa entrevista com Dylan, concedida a Jeff Slate. O gancho foi o livro The Philosophy of Modern Song, lançado neste ano de 2022 pelo roqueiro Prêmio Nobel de Literatura. O tema da entrevista foi basicamente música. Transcrevo um trecho da entrevista:

“A Grande Canção

Acho que uma grande canção tem os sentimentos das pessoas em mente. Quando você a escuta, sente uma reação nas entranhas, também uma reação emocional ao mesmo tempo. Uma grande canção segue a lógica do coração, e permanece na sua cabeça muito tempo depois que você a ouviu, feito Taxman. Ela pode ser executada por uma grande orquestra, ou por um menestrel errante, e não se precisa ser um exímio cantor para cantá-la. É um sino, um livro, uma vela. É sobrenatural. Te carrega e te faz sentir como se estivesse levitando. É próxima a uma experiência extra corporal.

Uma grande canção se modifica, dá saltos, e reaparece como o filho pródigo. Ele mescla gêneros. Pode ser punk, ragtime, folk rock ou zydeco, e ser tocada em estilos diferente, múltiplos estilos. Bobby Bland fazia isto, Gene e Eunice, também Rod Stewart, ou mesmo Gene Autry. Coltrane fazia isto sem letras.

Uma grande canção é a soma de todas as coisas. Pode ser o ponto decisivo de sua vida. Louis Armstrong faz isto com scats. Jimmy Rodgers com o canto tirolês, é atemporal e não envelhece. É um cantor rural, é sangue e trovão, está nas ruas tranquilas e na terra do leite e do mel. Esta em todos os lugares. Pode ser cantada por um vocalista ou por um backing vocal, é não discriminatória. Uma grande canção toca seu lado secreto, imerge nas suas mais profundas intimidades. Hoagy Carmichael escreveu grandes canções, como o fez Irving Berlin e Johnny Mercer.  Algumas pessoas que você desejaria ter escrito canções. Frank Dobie, Teddy Roosevelt, Arthur Conan Doyle, gente assim poderia ter composto ótimas canções, mas não fizeram isto.

CLÁSSICOS

Quem vai compor os grandes clássicos de hoje? Um rapper, um astro do hip hop ou do rock? Um artista de raves, um especialista em sampling, um cantor pop. Isto é música para o establishment, comercial. Parodia a via real, movimenta-se, um arremedo. É formato de computador. Um standard é outra coisa. De outro nível. É uma canção em que se presta atenção, modelo para outras canções, talvez uma em mil.

Quanto aos vídeos, eles podem prejudicar o artista se não há justificativa para fazê-lo. Para alguns artistas vídeos são necessários. Podem recriar o estado emocional de uma canção. Canções sore morte dão grandes vídeos, feito Tell Laura I Love Her So. Canções sobre automóveis também. Feito uma sobre um jaguar azul celeste e o thunderbird. Há uma música do Creedence, It Came Out of the Sky que daria um ótimo filme de ficção científica. Se você pensar bem, os filmes tornaram-se os novos vídeos de música pop. Hans Zimmer, John William, eles são um novo tipo de superstar”..

Glossário

Taxman – canção de George Harrison gravada pelo Beatles, no álbum Revolver (1966)

Zydeco – gênero musical da Louisiana, lembra o forró

Gene and Eunice – dupla de rhythm and blues dos anos 50

Bobby Bland – Guitarrista de blues e rhythm & blues

Gene Autry – ator e cantor caubói

Jimmy Rodgers – cantor e compositor, considerado o “pai” da country music

Frank Dobie – jornalista e folclorista americano

Tell Laura I Love Her So – canção de Jeff Barry e Ben Raleigh, sucesso com Ray Peterson em 1960. Uma tragédia adolescente. O namorado participa de uma corrida de carros. Com o dinheiro do premio iria comprar uma aliança pra namorada. Mas sofre um acidente fatal. Suas ultimas palavras foram: “Diga a Laura que a amo muito”.

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