Nina Hagen, estrela alemã do Rock in Rio 1985, está de volta ao disco, o primeiro em onze anos

Manhã estranha de Natal. Acordo com a música que emana da favela, uma cantora brega numa música igualmente estranha. A letra é o lugar comum de sempre, mas a melodia foi copiada de Fotografia, de Tom Jobim. Depois rola um We are the one/we are the people, aquele com participação uns 200 astros do pop rock gringo, cada qual canta uma palavra. A música chama-se USA for Africa (1985), e aí entra Nina Hagen.

A primeira mensagem de e-mail que abro é sobre o novo disco da cantora alemã, que foi a atração mais badalada do Rock in Rio em 1985. Com caras e bocas, e provocações em tempo integral, Nina Hagen ganhou as páginas dos jornais, revistas, e foi mais focada pelas TVs do que AC/DC, Queen ou Iron Maiden. Nunca uma roqueira badalou tanto no Brasil. Primeiro porque era da Berlim oriental, a comunista. Sim, o comunismo naquele tempo ainda existia em vários países. Berlim era dividida pelo que no ocidente se chamava de “Muro da Vergonha”. Nina Hagen, que militou na Juventude Comunista da Alemanha Oriental, não era de vergonhas. Mais desinibida, impossível.

Unity é o novo álbum da cantora alemã, o primeiro em onze anos. Ela é a dita “avó do punk”, mas enveredou pelos mais diversos estilos, do punk a new wave, experimentações, o escambau. Neste disco ela mira vários alvos, e tem como convidados George Clinton na faixa que dá título ao álbum, mais a anglo-jamaicana Liz Mitchell (que foi do Boney M), e Lene Lovitch, espécie de Nina Hagen inglesa (nasceu nos EUA, mas mora na Inglaterra há 60 anos. Tem 73). As duas já fizeram alguns trabalhos juntas. Unity tem sonoridade contemporânea, e abre espaço para algumas canções antigas, Blowin in the Wind (1963), de Bob Dylan, 16 Tons, de Merle Travis (lançada há 75 anos), e Redemption Day (1996), de Sherryl Crow .

Nina canta em inglês em alemão. Uma das melhores faixas do álbum é Gib Mir Deine Liebe (Me dê teu amor), um tecnopunk, e que mostra suas habilidades vocais, cantando com timbres variados, do gutural ao falseto. Um disco com menos adrenalina do que os que gravou nos anos 80, mas ainda assim sem parecer estar acomodada.

NO RECIFE

Nina Hagen tornou-se meio folclórica pelas atitudes que se tornaram quase estereótipos de roqueira enfezada. Talvez mais no Brasil do que em qualquer outro país. Foi tão badalada no Rock in Rio, que voltou dois meses ao Brasil para uma turnê de 14 shows, e que aterrissou no Recife em 19 de março de 1985. Ela continuava sendo notícia. Fez uma ponta numa novela Global, Um Sonho a Maia, namorou com Supla. A Sorvane (fabrica instalada no Curado) criou um sorvete direcionado aos jovens, e Nina foi a garota propaganda. Até o Bloco Anárquico Armorial Siri na Lata, em sua prévia daquele ano, teve influencia da alemã, na ala feminina batizada Tigresas no Asfalto no Ritmo de Nina Hagen.

Nina hospedou-se em Olinda, no Hotel Quatro Rodas, onde concedeu uma coletiva, na qual foi pródiga em espalhafatos. Agindo exatamente como se esperava dela. Fez um ótimo no show no Ginásio de Esporte Geraldo Magalhães, mas foi uma decepção para os produtores. Esperavam um público de 15 mil pessoas, mas tiveram apenas 3.900 pagantes. A expectativa era arrecadar 525 milhões de cruzeiros. A renda só chegou a 149.

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