Mestre Ambrósio: e assim se passaram 30 anos. A banda se apresenta no Recife depois de duas décadas

Depois de uma parada de 20 anos, a Mestre Ambrósio, uma das mais destacadas banda da era manguebeat, reuniu-se para celebrar os 30 anos de criação do grupo, e reencontra o público recifense, nesse sábado, no Clube Português, com abertura da Orquestra de Bolso, com suas releituras do frevo, e de Nailson Vieira, compositor, cantor e trombonista da nova geração de artistas da Zona da Mata que vem renovando a música pop de raiz pernambucana. A discotecagem fica por conta de Allana Marques. 

Hélder Vasconcelos, um dos fundadores da banda, conversou com o blog telestoques sobre o principio, o meio, o fim, e a volta da Mestre Ambrósio.

Mas antes um prólogo necessário. O acaso contribuiu para surgimento do grupo, na figura de um etnólogo americano chamado John Patrick Murphy, que veio ao Recife estudar as manifestações culturais da Zona da Mata, mais precisamente o cavalo marinho.

“Sergio Veloso foi um assistente competente e um gentil companheiro de viagem, e agora ganhou sua própria bolsa de estudos pra estudar a rabeca e sua música”, citação a Siba Veloso nos agradecimentos iniciais da tese etnográfica do cavalo marinho, de John Murphy, viabilizada pelo Instituto de Estudos Ibéricos e Latino-Americano da Columbia University, da Fundação Fullbright, com participação da Universidade Federal de Pernambuco, onde Siba então estudava”

Murphy, que escreveu um minucioso estudo sobre o cavalo marinho, não sabia que involuntariamente estava também dando uma importante contribuição à música popular pernambucana, no auge do manguebeat. Siba Veloso sabia muito pouco, quase nada, sobre as manifestações culturais da Zona da Mata. Porém enquanto trabalhava como assistente de John Murphy foi se encantando com o folguedo dramático. Aprendeu toadas do cavalo marinho, e canções do  forró de característica bem particulares, diferente do estilo gonzagueano, feito na Zona da Mata.

“Escolhemos o nome Mestre Ambrósio, ou Ambrósio, pela função dele no cavalo-marinho, que era parecida com o que a gente queria fazer no nosso contexto. O que é o Mestre Ambrósio no cavalo-marinho é uma um vendedor de figuras. Uma figura que vendia figuras”, esclarece Hélder  

Siba, que mais tarde formaria o grupo Fuloresta do Samba, e do qual participou o Batista, um dos dois mestres focados por John Murphy em seu trabalho. As pesquisas do americano transcorreram entre 1990 e 91. Em 1992, chamou, Hélder Vasconcelos para formar o que seria o Mestre Ambrósio:

“A gente era colega desde o colégio. Nós piramos com aquilo, estávamos vinte e poucos anos, muita energia, ficamos completamente envolvidos. Todo mundo já estava numa banda. Começamos eu Siba e Eder, movidos pelo encantamento com a cultura popular.  Cada uma tinha um interesse particular. Eder já era mais com o maracatu nação, Mauricio com afoxé, com caboclinho. Mazinho fazia muito voz e violão em barzinho. Quando a gente junta pra a banda, isto estava muito forte. O nome, Siba deu a sugestão, mas não teve uma estratégia, um marketing para promover a banda”.

A criação da Mestre Ambrósio coincidiu com o surgimento do bar A Soparia, de Roger de Renor (do Som Na Rural), no Pina, que logo se tornou algo como o epicentro do manguebeat. O objeto de desejo dos músicos pernambucanos era tocar na Soparia. Quando os integrantes do Mestre Ambrósio procuraram saber a possibilidade de tocar no bar, Roger conhecia tanto cavalo marinho quanto o a Mestre Ambrósio. Porém como os músicos disseram que faziam um forrozinho, e o gênero estava tendo uma retomada, ele concordou que tocassem no intervalo do grupo de choro, cujos saraus aconteciam nas quartas, e no domingo à tarde.

Continua Hélder a repassar a história da Mestre Ambrósio:

“isto se deu por volta de 1994. Fomos evoluindo, a gente ensaiava de segunda a sexta num estudiozinho que Eder tinha na casa dele. Então a gente foi evoluindo, começamos a ter público na Soparia, a coisa deu certo. Então passamos a dividir a noite da quarta-feira com o chorinho. Até que ganhamos a quarta-feira. Viramos a sensação dessa noite. Foi isto que fomentou o nosso trabalho. Não tinha ainda muito a realidade de gravar”.

 A Mestre gravaria o CD de estreia em 1996, produzido por Lenine, mas ainda independente, com selo Rec Beat. O álbum vendeu tão bem, que atraiu a atenção da Sony Music, pela qual a Mestre Ambrósio gravaria dois CDS, Fuá na Casa de Cabral (1998), e Terceiro Samba (2001). Mas a banda não continuaria por muito tempo, logo depois do terceiro disco debandaria. Segundo Hélder os integrantes continuaram amigos, ele e Siba além de amigos são compadres. “A gente tem uma admiração recíproca”, garante.

“Eu sai, e disse me avisassem quando houvesse um show do Mestre Ambrósio. Sai porque precisava me aprofundar, era uma coisa mas forte que eu. O Mestre Ambrósio não era uma companhia de dança, de teatro, era uma banda de música. Por que a banda não continuou eu não sei. Não teve confusão, na base de vou sair, e ninguém toca. A banda parou mesmo. Participei do ultimo show no Sesc Santo André, em 2004. Ninguém parou de trabalhar com música, cada um seguiu a sua maneira”.

O Mestre Ambrósio nesta volta aos palcos recifenses, tocará um apanhado de canções dos seus três discos e exatamente com a mesma formação de três décadas atrás: Siba (vocal, guitarra e rabeca), Eder “O” Rocha (percussão), Helder Vasconcelos (fole de 8 baixos, percussão e coro), Sérgio Cassiano (vocal e percussão), Mazinho Lima (baixo e coro) e Mauricio Bade (percussão e coro),

Na foto, a Mestre Ambrósio em 1994, no bar A Soparia

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