Vassourinhas completa 133 anos neste Dia de Reis de 2023

Num Dia de Reis de, há 133 anos, foi fundado uma das agremiações carnavalescas mais antigas e conhecidas do país, o Vassourinhas, hoje uma pálida sombra do que foi, com a sede em ruínas, que tem como único bem sua rica história. Há várias versões do nascimento do clube, mas a que considero a mais próxima da verdade, pela riqueza em detalhes, é a de Nô Pavão, que foi presidente do Vassourinha na primeira década do século 20. O trecho abaixo é um spoiler do livro Choro e Frevo – Duas Viagens Épicas, parceria com a Página 21, que está indo pro forno sobre a viagem do Clube Carnavalesco Misto Vassourinhas para o Rio, em 1951, e de um grupo de chorões do Recife, em 1959, também para o Rio, à casa de Jacob do Bandolim, onde aconteceu um sarau histórico   

“Depoimento de Nô Pavão para a história do Vassourinhas 

João Batista do Nascimento, mais conhecido no meio carnavalesco como Nô Pavão, nasceu em 29 de agosto de 1855, na rua ou Beco do Ciúme, por trás do atual Liceu dos Ofícios, no Bairro de Santo Antônio nesta cidade do Recife. Sua mãe dona Idalina Joana do Nascimento, irmã de João Nunes do Nascimento, talhador, amigo de boêmia de Matias da Rocha e de Cosmo Cabeça de Pau, irmão de Matias e de outros mais, como João do Carmo, Carrinho, Epifânio, irmão de Carrinho. Nô Pavão diz que o Clube vassourinhas, afirma ele, fundado em 6 de janeiro de 1889, foi instalado a 7 de fevereiro de 1889. A maneira como surgiu o Vassourinhas, afirma ele, foi que Andrade, alfaiate e outros, quando terminavam o trabalho, ao meio-dia, iam fazer a farra na Adega Portuguesa, esquina do Beco do Sarapatel, com o Pátio do Carmo. E da adega saíam para a casa de Andrade, em uma travessa que ficava defronte à igreja do Carmo, isto é, do seu oitão. Era uma travessa sem nome que ligava as ruas Camboa do Carmo com a Frei Caneca. 

Aos domingos, muitos compareciam para farrear na casa de Andrade, e em uma dessas farras, apareceu a ideia de formar um clube. Na discussão sobre seu nome veio o de Vassourão. E houve protestos, não servia. Prosseguiram na busca do nome ideal, tendo então aparecido outros nomes, logo rejeitados, mas alguém pegou numa vassoura e propôs o nome de Vassoura, que soou mal, sem dúvida, quando em seguida uma pessoa disse Vassourinhas, que agradou e foi aprovado. Andrade morava também em Beberibe, na Estrada da Caixa d’Água, onde oferecia almoço aos amigos, tomava vinho de jenipapo, e nos fundos corria o rio Beberibe. Na época já existia o trem como transporte coletivo, que transportava passageiros para diversos subúrbios do Recife e de Olinda, levando também os amigos de Andrade para Beberibe e pagava passagens de ida e volta por 200 réis e, simples, 6 vinténs. Nessa altura, afirma Nô Pavão, desconhece a existência do clube Vassourinhas, ou seu surgimento no Porto da Madeira e que, não sendo homem de polêmicas, para não trazer inimizades, sempre se calou quando afirmavam ter o clube surgido naquele lugar. Mas agora dava seu depoimento verídico. Vassourinha nunca surgiu, mas muito menos esteve ali”. 

O testemunho de Nô Pavão, é muito importante porque desfaz equívocos sobre clubes pedestres, poucos foram integrados por foliões do mesmo ofício. Os Caiadores, o primeiro clube de pedestres, era formado por foliões das mais diversas profissões. Caiador, na época, era o que se chama hoje “brocha”, o homem impotente. Como caiador era profissão de quem pintava, dava mão de cal, nas paredes, os clubes que seguiram a ele passaram a empregar nome de profissionais de ofícios, os mais variados.  

 Nô Pavão detalhou as profissões dos que fundaram o Vassourinhas. O primeiro porta bandeira do clube, Carrinho de Almeida, era talhador, Claudino era alfaiate, João Quintão, que também foi porta-bandeira, possuía um hotel na Rua do Fogo, José Lopes, trabalhava na Casa Agra, Nô Cirandinha era também talhador, João de Emília era da estiva. Ele não cita nenhum varredor de rua entre os que começaram o Vassourinhas. Nô Pavão assumiu a presidência do Vassourinhas em 1909, e pensava longe. Numa época em que direitos autorais não tinham maior importância, em que música era feito passarinho, de quem pegasse, ele comprou, para o clube, por 3$000, a Marcha nº 1, o frevo Vassourinhas, aos dois compositores oficiais da música, com documento registrado em Cartório, assinado por Mathias Theodoro da Rocha e Joana Batista da Silva. Com um detalhe: Mathias morreu dois anos antes. Quem teria assinado por ele?” 

(na foto, passistas do Vassourinhas exibindo-se no Teatro João Caetano, no Rio, em 1951)

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