Publius lança Bleus, inaugurando e reforçando parcerias, em canções inéditas, com roupagem eletroacústica,

O Recife cada vez mais faz jus ao título de “Cidade da Música”, o recifense tem um ouvido musical que não é normal, tomando emprestados versos de Caetano Veloso em Love. Poderia ser “Estado da Música”, já que do sertão ao cais os mais diversos estilos musicais fluem como rios em direção ao mar.

Uma vertente da música recifense (ou da Região Metropolitana) caminha em sentido contrário aos que negam a canção tradicional,  uma, digamos, néo-MPB, em que se enfatizam letras, melodias e arranjos elaborados. É o caso de Bleus, terceiro disco de estúdio (e quarto da carreira solo), de Publius, que aterrissou nas plataformas de streaming nessa segunda-feira, 16 de janeiro.

O disco reúne dez faixas, apenas uma não assinada por Publius, Au Bord de La Mer, de sua companheira Lis (que tem letra em francês, e participação da autora no vocal). Aqui uma característica que se disseminou pela música brasileira, nas duas ultimas décadas, as muitas colaborações dos artistas entre si. Tamanha brodagem, certamente, facilitada pela ausência de laços contratuais com gravadoras.

 No caso pernambucano, mais exacerbada. Em Bleus, Publius amarra parcerias com o onipresente Juliano Holanda, nas faixas Várzea, e Aos Quatro Ventos. Inaugura parceria Xico Bizerra A Janela da Casa do Tempo (que abre o disco). Com Tonino Arcoverde compôs Passarim. Assina Compactuar com Zeh Rocha. Com os poetas Paulo Marcondes e Emídio de Miranda fez, respectivamente, O Amor, e O Harmônio. Por fim, do seu irmão Pabulus Lentulus Publius musicou A Natureza Tem Um Desejo Para Mim. Camará é a única feita sem parceria.

A sonoridade pastoral permeia Bleus, embalado numa suavidade melancólica. Multinstrumentista, Publius é um one-man-band toca voz, violões de nylon, de 12 cordas, bandolins e guitarra semiacústica. Disco de pernambucano dificilmente não traz ritmos regionais, aqui eles se fazem presente, porém sutilmente Entre Tango, blues, baião, samba, surge o frevo ou o samba de coco, o paranauê da capoeira, em Camará, com versos influenciados pela poesia oral sertaneja, com a guitarra fazendo às vezes do berimbau. Ressalta-se a ausência de instrumentos percussivos: “A percussão está nas cordas dos instrumentos. Foi um conceito para o álbum”, esclarece Publius. A flauta de Mozart Ramos cerze a melodia de Várzea, e de Passarim, esta segunda rescende à música da revoada de nordestinos que aportaram no Sudeste nos anos 70.

Ainda uma ameaça pairando no ar, a covid-19 teve influência em Bleus, está na faixa inicial, A Janela da Casa do Tempo. As canções foram compostas entre 2000 e 2020, espaço de duas décadas de tantos acontecimentos, sescolhidas, segundo Publius, numa “seleção afetiva”, do seu repertório. A citada faixa primeira é uma balada dorida, um canto visceral. Também as influências de eras outras. Compactuar, com Zeh Rocha, traz ecos do Clube da Esquina, enquanto O Amor trilha a linha do samba alto astral de Toquinho e Vinicius, inclusive com Paulo Marcondes sendo o poetinha da vez. A versatilidade de ritmos e de tema, exemplificada em Harmonium ou em Au Bord de La Mer, a cândida canção em francês.

Bleus é o apelido de infância de Publius, o que aponta para o clima evocativo do álbum, produzido por ele e Paulo Umbelino (gravado nos estúdios Fábrica, Malunguim e Muzak).  É dele também a arte da capa, com foto de Luara Olívia. O álbum é dedicado a Guitinho de Xambá, músico do grupo Bongar, falecido em 2021.

2 comentários em “Publius lança Bleus, inaugurando e reforçando parcerias, em canções inéditas, com roupagem eletroacústica,

Adicione o seu

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: