Frevo, meu bem – A discografia do frevo é um labirinto pontuado por disquinhos de gravações particulares

A capa que ilustra a postagem é de um compacto, de 1967, com dois frevos canção do maestro Nelson Ferreira, Um Instante Maestro, e A Palavra É, ambos inspirados em programas de TV populares na época. O primeiro, apresentado por Flávio Cavalcanti, o segundo usa frase do Esta Noite se Improvisa, apresentado por Blota Junior. Ele dizia “A palavra é”, e o participante que apertasse primeiro um botão ao lado da cadeira, cantava uma música que tivesse a tal palavra na letra.

Descolei este, com autógrafo de Nelson Ferreira nas minhas caçadas ao compacto perdido, pelos sebo e calçadas do Centro. Numa dessas vezes, encontrei o LP, original, Capiba 25 anos de Frevo, de 1959. Foi num sebista conhecido, com quem desovei boa parte dos LPs que possuía, quando comecei a substitui-los pelo CD. Perguntei, assim como quem não queria nada, o preço. E ele: ”Oxe, pra tu é de graça”. Detalhe: a capa autografada por Capiba.  

Em 2015, publiquei um livro chamado O Frevo Gravado – De Borboleta Não É Ave a Passo de Anjo, a maior dificuldade de um livro assim é a fragmentada discografia do frevo. Sabe-se quais foram lançados pela Rozenblit, pelo selo Mocambo, pelas grandes gravadoras do Sudeste, mesmo que praticamente tudo fora de catálogo (a Rozenblit tem resposto seus discos, em formato digital, no seu canal no Youtube e no Spotify).

O problema são os compactos independentes, então chamados de “gravação particular”. A gravadora dos irmãos Rozenblit lançava um suplemento pequeno para o carnaval. Basicamente um LP da série Capital do Frevo, e alguns compactos. O suficiente, afinal a música só tocava até o carnaval. Se bem que os discos eram lançados em novembro. Eram trabalhados durante três meses. Quando chegava a o carnaval os frevos já eram devidamente conhecidos pelos foliões e pelas orquestras, às quais eram distribuídas partituras.

Com o frevo canção suplantando o frevo de rua em vendas, surgiu uma miríade de compositores. Para compor frevo canção não se necessitava saber ler e escrever música. Fazia-se o frevo, e um maestro criava o arranjo. Não era fácil passar pelo funil da Rozenblit. A saída era o próprio compositor bancar o disquinho. Até os anos 60, no frevo tinha mais importância o autor do que o intérprete. O primeiro bancava todas as etapas do disco, incluindo o cachê de quem o cantaria. Os compactos eram produzidos na Rozenblit, mas na capa imprimia-se o selo do compositor.

Às vezes um grupo de autores se reunia para gravar um disco particular. Um bom exemplo é O Carnaval da Vitória, de 1986, um EP, com seis faixas, e cinco compositores, com selo Veneza. Ou A Mulher de Um Cara, de 1975, da Etiqueta Maia, com a Orquestra de Frevos de Evanildo Maia, e também seis faixas, cada qual assinada por um compositor, e arranjos de quatro maestros, entre estes Duda e Ademir Araújo.

Foram centenas de compactos, tudo raridade hoje, feito o Pitombeira 1947-1979 – Troça Carnavalesca Pitombeira dos Quatro Cantos de Olinda – Pernambuco, com o antológico hino da troça, escrito por Alex Caldas. O compacto tem mais três faixas, mais uma de Alex, e duas de Clídio Nigro e parceiros. Curiosamente, Nigro é autor (com Clóvis Vieira), do Hino do Elefante, maior rival da Pitombeira.

Pra complicar ainda mais se chegar à discografia do frevo, gravadoras do Sudeste também lançaram compactos, feito o Capiba Poeta do Frevo, com selo da CBS, sem data (provavelmente da segunda metade dos anos 60 ou inicio dos 70), e quatro composições de Capiba, três frevos canção e um raro frevo de rua, este tipo de frevo não era a sua praia.

Devo ter mais de cinquenta compactos de frevo, o que é quase nada em relação ao que foi lançado, como disco particular, como o Carnaval Promodisc, também sem data, produzido por Genival Macedo (autor de Micróbio do Frevo), com quatro faixas, duas delas assinadas por Onildo Almeida (autor de A Feira de Caruaru), com a Orquestra e Coro Promodisc (?), arranjos do maestro Duda.

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