Dia do frevo: do guarda-sol à inevitável sombrinha

No artigo de Solano Trindade, que teve uma parte transcrita numa postagem anterior, ele escreveu sobre a origem do guarda-chuva, mais tarde a sombrinha do frevo, acessório que se tornou mais importante do que o passista. Até início dos anos 50, os grandes dançarinos não faziam o passo o tempo inteiro com a sombrinha, com o tempo é, na prática, uma extensão do corpo da passista. Já há alguns anos, a sombrinha virou o símbolo do frevo. Mas aí é outra história, que merece uma discussão à parte. O citado artigo de Solano foi publicado em 17 de maio de 1950, no jornal Diário da Manhã, com o título de O Frevo e a Coreografia Brasileira.  

“Em Arquivo, primeiro e segundo números de 1944, Mário de Andrade Escreve: Aliás, vários autores têm indagado da tradição estrambótica dos passistas carregarem um guarda-chuva. No caso, eu acho que se trata de uma tradição afro-negra, embora a tradição tenha correspondências europeias como, por exemplo, os pálios do Santíssimo das procissões católicas. Mas não creio que estas tivessem sequer confirmado as tradição afro-negra.

Os cordões carnavalescos, em sentido ainda mais largo que os maracatus atuais, são derivações festivais dos cortejos místicos e reais africanos. E nestes, as tradições dos monarcas estarem cobertos por um guarda-sol enfeitado, pálio, ou coisa que o valha está numerosamente indicada por viajantes, cronistas e etnólogos. Ora, não é qualquer pessoa que sai á rua para se divertir no Carnaval e cair no frevo que leva consigo um guarda-chuva: são quase exclusivamente os passistas dos cordões do clubes, isto é, de cortejos decaídos da sua funcionalidade social primitiva. Assim eu creio ver no guarda-chuva dos passistas uma dessinência decadente e (generalizada pelo auxilio de equilíbrio que isso pode dar) dos pálios dos reis africanos, até agora permanecidos noutras danças folclóricas nossas – nos congos, por exemplo, o guarda-chuva do passista seria assim uma sobrevivência utilitária dum costume afro-negro permanecendo entre nós’.

O meu ponto de vista, baseados em reminiscências de garoto é diferente do grande Mário de Andrade que, aliás, teve a honestidade de afirmar, no início do seu estudo, não ter autoridade para estudar a coreografia nordestina; Nada há de semelhante entre o guarda-chuva do frevo e o pálio do maracatu, do caxambu e do congo. Neste é chapéu é exclusivo dos monarcas, naqueles são os passistas que se cobrem, ou melhor dançam com o guarda-chuva. Não há, no caso, nenhuma sobrevivência afro-negra, tampouco a necessidade de auxílio ao equilíbrio.

O chapéu de sol, ou guarda-chuva, surgiu nas troças que saem pela manhã e recolhem-se à tarde. Os passistas defendiam-se do sol por meio do chapéu. No prato misterioso, no Pão Duro, no Pão da Tarde, a multidão aparecia de guarda-sol aberto das 10 às 14 horas. À noite, se não chovia, não se encontrava alguém de guarda-chuva.

Foram Cícero Dias, Augusto Rodrigues, Lula (Cardoso Ayres), e outros artistas plásticos que colocaram o guarda-chuva como símbolo do frevo. Entretanto cada clube desfila com símbolo próprio, os Vassourinhas com vassouras, os Lenhadores com machados e os Caiadores com varas e brochas, etc. mas ainda: no frevo há quatro tempos de dança, e em três deles é impossível o uso do guarda-chuva. Na dança do estandarte não pode usar o guarda-chuva porque tem nas mãos uma pesada bandeira, na dança da onda – dançada camada mais alta da sociedade – igualmente os dançarinos dançam de braços dados, imitando as ondas do mar, correndo pra frente e pra trás. Na dança do cordão os dançarinos trazem nas mãos os símbolos do clube, tornando impossível o uso do guarda-chuva.O guarda-chuva só pode ser usado pelos passistas, os únicos dançarinos do clube que têm as mãos livres para fazer piruetas, dobradiças, borboletas, barriguinhas, parafusos, urubus malandros, tesouras, etc, com seus guarda-chuva”.

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