Crônica: atear fogo às vestes foi prática comum no Brasil

O ato de morrer pelas próprias mãos, encharcando as roupas com álcool, gasolina, querosene, e em seguida acender um fósforo e se incendiar, para os tempos atuais é um absurdo. Difícil conceber como alguém possa estar tão transtornado para cometer tal tresloucado gesto.

Num passado, felizmente, cada vez mais distante, era muito comum, ver jornais, ou escutar em programa policiais no rádio, com um “ateou fogo às vestes”, seguido dos detalhes da pessoa que o cometeu. “Maria Silva de Souza, por ter sido difamada por sua vizinha Margarida de tal, ateou fogo às vestes embebidas de querosene, sofrendo queimaduras de 1º e 2º graus. Seu estado é desesperador” (Diário de Pernambuco, 6 de março de 1960).

Dois dias antes, “desesperada por ter sido vítima de dupla injúria por parte da mãe do seu amásio, Maria Jose dos Santos, de Jaboatão Velho, ateou fogos às vestes, depois de se banhar em álcool. Imolou-se na casa da qual o amásio a expulsara depois do que a mãe lhe contou”. Só no Recife, acontecia uma média de uma imolação por mês, quase sempre de mulheres.

Em maio de 1960, também desesperada por calúnias disseminadas pelas vizinhas, Marta Josefa e Antônia da Silva, a doméstica Beatriz Josefa da Conceição, residente no Totó, “Trancou-se no seu quarto, ensopou as vestes em querosene, e lhe ateou fogo. Deixando-se queimar com uma calma impressionante” (DP, 29/5/60).

Pouco menos de um depois, Claudina Francisca da Silva, uma senhora de 60 anos, acamada, sofrendo de um mal que se considerava incurável, enquanto a filha cochilava, apanhou uma garrafa de querosene e incendiou-se na própria cama.

Um raro caso de homem ateando fogos às vestes foi noticiado em setembro de 1960, quando o adolescente Aloisio José de Araújo, de 17 anos, por problemas de “foro íntimo” banhou-se em gasolina e tocou fogo em si mesmo na oficina onde era ajudante de mecânico, no bairro da Tamarineira. No mesmo setembro, por causa de dívidas, outro homem ateu fogo às vestes. “João Batista Rodrigues, de 27 anos, morador da Mustardinha, imolou-se com a roupa embebida em querosene”.

Enquanto os homens ateavam fogos às vestes, na maioria dos casos, por causa de dívidas, as mulheres o faziam geralmente por ciúme ou desilusão amorosa.  Até superstição ocasionou esta prática. Em afogados, em maio de 1962, a septuagenária Fortunata Maria da Conceição, alvo de uma brincadeira de serra velho, durante a Semana Santa, acreditando que não sobreviveria à maldição, e morreria antes da próxima Semana Santa, banhou-se em querosene, e ateou fogo às vestes. O fogo espalhou-se pelo barraco em que morava que também se incendiou.

Os jornais da época estampavam numa mesma edição até três “tresloucados gestos”, expressão sempre usada nas matérias. Alguns tragicômicos, como um acontecido com uma moça de Natal, de 19 anos, que, em maio de 1960, ateou fogos às vestes “inconformada com a decisão do marido de mudar-se para Brasília”.  

Os tresloucados gestos aconteciam Brasil afora, e até viraram música. Mãe Solteira (1955), clássico de Wilson Baptista e Jorge de Castro, gravada por Roberto Silva, que conta a tragédia de uma sambista: “Maria da Penha, a porta bandeira/ ateou fogo às vestes por causa do namorado”.

Numa matéria, do Jornal do Brasil, em agosto de 1966, intitulada Brasileiro não é primitivo para matar-se e está em dia com o progresso das drogas, o médico Frederico Alberto Azevedo Gomes constata a diminuição de suicídios por “tresloucados gestos”, atribuindo-o à popularização dos barbitúricos, calmante, ansiolíticos e afins.

MARIA DA PENHA, A PORTA BANDEIRA

Mãe Solteira, de Wilson Baptista e Jorge de Castro, cantada por Roberto Silva, nada mais é do que uma crônica de mortes noticiadas diariamente imprensa país afora. Wilson Batista simples narra o fato, não faz julgamento nem vai além explora a tragédia:

Hoje não vai ter ensaio, não
Na Escola de Samba
O morro está triste
E o pandeiro calado
Maria da Penha, a porta-bandeira
Ateou fogo às vestes
Por causa do namorado
O seu desespero foi por causa de um véu
Dizem que essas Marias, não têm entrada no céu
Parecia uma tocha humana
Rolando pela ribanceira
A pobre infeliz teve vergonha de ser mãe solteira.

4 comentários em “Crônica: atear fogo às vestes foi prática comum no Brasil

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