Sambas de Capiba, há décadas fora de catálogo, foi relançado nas plataformas digitais

Samba de Capiba, com repertório inteiro de composições de Lourenço da Fonseca Barbosa, o Capiba, com parceiros, e interpretado por Claudionor Germano, raridade ímpar da MPB, agora está disponível nas plataformas digitais. Quem gosta de música pernambucana da boa, tem que conferir esta pérola. Mas vamos contar um pouco da história do álbum:

O lançamento do LP Sambas de Capiba, em 16 de novembro de 1960, na Livraria Editora Nacional, no Centro do Recife, foi um dos eventos mais badalados da capital pernambucana. Muita gente compareceu ao disputado coquetel oferecido pela gravadora Mocambo, e que contou com a presença da de intelectuais, da alta sociedade, de fãs e curiosos em geral. Aliás, o grande sucesso do Carnaval de 1960, foi o álbum Capiba 25 Anos de Frevo, gravado em 1959, e que até hoje continua em catálogo. Conhecido como o campeão do frevo canção, Capiba surpreendia com um álbum inteiro de sambas.

Capiba não começou a fazer samba, porque lhe deu na telha ou para seguir uma tendência de então. Em 1960, tanto o samba tradicional, quanto sua variante moderna, a bossa nova, estavam no auge. Capiba compunha sambas desde quando começou a fazer música. O lado A do LP, contem seis sambas criados entre 1930 e 1959. No lado B, mais meia dúzia, todos escritos em 1960. O disco tem arranjos de Nelson Ferreira, Clóvis Pereira, e a voz de Claudionor Germano, badalado pelos dois discos que gravara com frevos de Nelson Ferreira e Capiba pro carnaval daquele ano.

Sambas de Capiba rendeu um clássico instantâneo, A Mesma Rosa Amarela, parceria com o poeta Carlos Penna Filho. Foi uma das canções mais regravadas de 1960. Arranjada originalmente pelo Maestro Clóvis Pereira, a música aproxima-se da bossa nova. Alguns a regravaram como se bossa fosse. Esta de Capiba bossa-novista levou Ariano Suassuna a uma frase de efeito: “Capiba não é bossa nova, nem bossa antiga, é bossa eterna”. Abaixo, o texto escrito por Ariano Suassuna para a contracapa do álbum.   

“Depois do vitorioso disco 25 Anos de Frevo, no qual junto os belíssimos frevos de Capiba, a Mocambo presta mais um serviço à música popular nordestina, com a gravação deste outro, organizado com alguns dos muitos sambas que o nosso grande compositor popular fez dos anos 30 pra cá.

Na verdade, o presente disco contem doze sambas, começando pelo mais antigo, Não Quero Mais, feito no ano da revolução, até os da segunda face, todos de 1960, isso permitiu que a coletânea começasse com uma obra prima, no campo do popular, o já referido Não Quero Mais, e terminasse com outra, o samba que o grande Capiba compôs para um poeminha de Carlos Penna Filho, A Mesma Rosa Amarela, escrito pelo poeta no último mês de sua vida, expressamente para que o compositor que ele tanto admirava o musicasse. Carlos, quando admirava alguém, fazia-o calorosamente, fazendo questão de declará-lo com aquela generosidade e capacidade de se dar que era um das marcas mais humanas da sua pessoa.

 A propósito da gravação dos frevos de Capiba, escreveu um artigo simpático, cheio de admiração porque a quem, como eu, ele considerava o grande e incomparável compositor do Nordeste. Amigo pessoal de Capiba já o era há tempo. Ultimamente, porém, esta amizade tinha se estreitado muito e resolveram se unir, compositor e poeta, numa experiência que juntasse suas duas artes, em poucos dias escreveram quatro sambas, de modo que no disco com que sonhamos juntos, ele, eu, Capiba, Orlando da Costa Ferreira, Paulo Fernando Craveiro, Claudionor Germano e tantos outros – quatro letras são do próprio compositor, uma de João Santos Coelho, companheiro de Capiba, ainda nos tempos da Paraíba – uma de Fernando Lobo, uma de Paulo Fernando Craveiro, uma de Thalma de Oliveira, e quatro do nosso grande Carlos Penna Filho. Tentei também escrever uma, mas nunca consegui fazer uma coisa simples que fosse ao mesmo tempo bela e facilmente acessível, marca da grande poesia, e que era o dom da voz pura e grave que acaba de se calar. No meu último encontro com ele disse-lhe isso, da inveja que tinha tido, inveja boa, sem maldade, tocada de admiração por não ter sabido escrever A Mesma Rosa Amarela.

Carlos Riu-se e conversou sobre outras letras, e pediu notícias do que eu estava fazendo. Despedimo-nos e foi essa a ultima vez que o vi. Creio, por tudo isso, que os outros parceiros de Capiba, neste disco se sentem também homenageados quando dizemos que ele pertence a Carlos Penna Filho mais do que a todos, inclusive mais do que ao compositor.

Quanto aos sambas aqui reunidos são todos de grande qualidade pelo que a única coisa legítima a fazer numa apreciação pessoal é dizer quais os que preferimos. Os meus preferidos são, de entre os antigos,Não Quero Mais, Eu Já Sei, Mentira e A Palavra Saudade. E dos mais modernos Faça de Conta e Pobre Canção. Depois, e principalmente, mais do que todos talvez, A Mesma Rosa Amarela, uma espécie de clássico.

A respeito dos últimos, fala-se aliás que Capiba aderiu à Bossa Nova. Não acredito nisso. Tenho visto essas marés subirem e baixarem, trazendo e levando celebridades, e deixando intacto o compositor, sereno e grande, no seu estilo de sempre. Neste disco o único samba em que se pode vislumbrar marca do modismo atual é o samba Claro, de que não gosto. Digo-o lealmente. Assim mesmo, é só na segunda parte, e sente-se um mestre da música popular, meio sorridente, dizendo para os meninos que descobriram a pólvora: “Vejam também sei fazer isso quando quero”. O que acontece, porém, é que nem por brincadeira Capiba deve querer isso. Um compositor popular de suas dimensões não é bossa nova, nem bossa antiga, é bossa eterna.

E que a minha ultima palavra seja para elogiar a simplicidade com que Claudionor Germano vem cantando e se impondo como interprete fiel e puro no meio dos cabotinos da música popular brasileira. Os cantores de hoje retorcem suas vozes, alteram o ritmo e a melodia falando depreciativamente daqueles que cantam quadrado, isto é, que comunicam fielmente a obra. O resultado é que, quando encontramos uma voz bonita, discreta, sóbria, que não procura se impor pelas contorções temos certeza de que estamos diante de um cantor autêntico. Os artistas são sempre marcados pela simplicidade, porque a pose e o fingimento são atributos do charlatão.

Reuniram-se assim seis poetas – porque Capiba também o é – um grande compositor popular e um excelente cantor e, com elementos da terra, fez-se um disco que honra a música popular nordestina. Que o público dê sua ultima palavra prestigiando a iniciativa para que se possam fazer muitos outros, pois o que não falta são músicas na gaveta de Capiba

Ariano Suassuna.

Um comentário em “Sambas de Capiba, há décadas fora de catálogo, foi relançado nas plataformas digitais

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  1. Teles,

    Esse disco é genial porque foi feito por gente genial e numa época em que se tinha versos no cérebro e não nas coxas, como acontece com hoje em dia.

    Parabéns pelo trabalho de pesquisa.

    Curtido por 1 pessoa

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