Devotos regravam, em ritmo de reggae, canções que se encaixam na atual conjuntura do país

Punk, rock, hardcore? É no Alto Zé do Pinho. Acrescente-se mais um ritmo: o reggae.  Nessa quarta-feira, 27 de abril, a Devotos lançou, nas plataformas de música digital, o álbum Punk Reggae, o nono título de uma discografia iniciada há 25 anos, oito anos depois da criação da banda, até hoje com os mesmos integrantes, Cannibal, Neilton Carvalho, e Cello Brown.

A quem estranhar a Devotos trocar o hardcore, que a popularizou nas quebradas da capital pernambucana, e brasileira, pelo malemolente ritmo jamaicano, vale lembrar que desde os primórdios o grupo acena para o reggae. Com exceção do álbum de estreia, Agora Tá Valendo (1997), os demais têm um ou dois reggaes. Cannibal tocou nos anos 90 com a Nanica Papaya, banda de reggae do Alto Zé do Pinho. Em 2008, em entrevista a Hugo Montarroyos (autor da biografia Devotos 20 anos), Cannibal revelou que fizera um álbum de dub, com participações de Fred Zeroquatro (Mundo Livre S/A) e Zé Brown (Faces do Subúrbio), foi o embrião do Café Preto, projeto paralelo de reggae que mantém até hoje.

Punk e reggae comungam entre si o engajamento, o ativismo, características da Devotos, que vai além de ser uma banda musical: é praticamente uma ONG, com ações como a distribuição de cestas básicas, durante a fase mais pesada da pandemia (numa parceria com ONG Fase), num projeto chamado SAS – Social Artista Solidário. O trio criou em 2016 o projeto Jardim Sonante, realizado com bandas convidadas, apresentado a cada último domingo do mês, com 1 kg de alimento não perecível como entrada. O projeto era ao vivo, com a pandemia tornou-se uma live que durou uma semana, e arrecadou 1,5 tonelada de alimentos. As ações da Devotos incluem ainda rádio e bibliotecas comunitárias.

O próprio Cannibal reforça a ligação social e política entre punk e reggae: “A ideia toda não era só musical, mas também as temáticas das letras que são muito parecidas. O punk eo reggae, estão sempre juntos através das suas temáticas, vivências e lutas,  Bandas como The Clash e Bad Brains, sempre misturaram o punk com reggae e fizeram acontecer, viram que dentro do universo da música não existe separatismo”.

Nossa História é a única inédita do disco (foi lançada como single), as outras dez vêm de diversos trabalhos da Devotos. Favela, por exemplo, é do segundo álbum, gravado para o selo Rock It, de Dado Villa-Lobos, em 2000, enquanto Periferia Fria é de O Fim Que Nunca Acaba (2018). Já Dança das Almas (com participação de Chico César) foi pinçada do disco Flores com Espinho para o Rei (2006), e Liga da Justiça vem também de O Fim que Nunca Acaba.

A temática da música da Devotos de desigualdade social, corrupção, violência está presente na linha do tempo da história do país. Pior do que isso, as letras que cantam continuam mais atuais agora do que quando começaram no final da década de 80.

Orixás, do álbum Póstumos, lançado uma década atrás, neste disco com participação de Isaar, aponta para a questão da intolerância religiosa, acirrada nos três últimos anos. Ainda mais atual é Luta Pacifista do álbum de 2006, parece ter sido composta para a atual conjuntura, é quase um jingle antiarmamentista: “Luta pacifista se transforma em luta armada/Quem lutava pela paz, hoje já luta com armas/cidadão ou delinquentes, não importa quem se mata/use a vida, não use armas/não use armas, não use armas, não use armas”. A canção abre em pegada hardcore para desacelerar, e entrar na vibe do reggae.

Com o trio do Alto Zé do Pinho estão músicos bem calejados e inventivos da cena instrumental pernambucana, Diego Drão (órgão, clavinete e piano elétrico), Henrique Albino (sax tenor e barítono), Sam Nóbrega (escaleta) e Thiago Duarte (percussão). Nos vocais de apoio, João Zarai e Surama. Louvem-se os arranjos, engenhosos e variados, e a masterização de Guguinha Dub (que está em todas). Na abertura, por exemplo, Nossa História segue a linha clássica de Bob Marley and The Wailers, mas ao longo do álbum o clima vai mudando. A Vida que Você me Deu (de 2000), abre com uma porrada hardcore, e resvala para o reggae, porém intercalada com mais zoeira. E assim segue o disco que envereda por política, reflexões pessoais, sociais, sem as obviedades do gênero. Em vez de louvar Jah, louva os orixás. As músicas têm muito do Alto Zé do Pinho, do Recife, do cotidiano de três músicos, Cello Brown, Cannibal e Neilton, com uma das mais longas e coerentes carreiras da história do rock nacional.

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