Crônica: (vale a pena ler de novo): Hidrante e cachaça no país da imprevidência

Somos o país da imprevidência. O único lugar do mundo onde submarino afunda. Se não é verdade, eu choche. O sucesso aconteceu em 2000. Esqueci o nome do submarino que afundou, dêm uma geral no Google que encontram. É por estas e outras, que o andar mais alto que encaro em prédio é o terceiro. Pra não facilitar, moro no primeiro, sem grade na varanda. Vai que acontece um incêndio, vão apagar com o quê? A água mais perto é a do canal de Setúbal. E aquela água ali, o incêndio é mais saudável.

Não sei porque os parlamentares, edis, autoridades competentes em geral não engatam uma campanha pela volta dos hidrantes. Sim, minha senhora, hidrante. E permita-me recorrer ao Aurélio para lembrar ao pessoal o que vem a ser hidrante: “válvula ou torneira a que se liga a mangueira, para extinção de incêndios”. Tô me valendo do Aurélio, porque outro dia esperava o rio de carros dar uma folguinha pra atravessar a rua. O mesmo faziam ao meu lado uma moça e um pirralho, seu rebento. Nunca vi a moça mais gorda, nem mais magra. Digo que o pimpolho era rebento dela porque pareciam gêmeos. Como o menino era muito  jovem pra ser gêmeo da moça, e a moça muito, relativamente, velha pra ser gêmea do menino, logo eram mãe e filho, e vice-versa.
Desculpem aí a complicação. Ultimamente tô cada vez mais barroco. Talvez influência de um opúsculo que li recentemente, de um baiano-sergipano chamado Antonio Munis de Souza, Viagens e Observações de um Brasileiro, publicado em 1834 e acho, que até hoje sem reedição. Aliás, o livro foi publicado no Rio, numa gráfica que não poderia ter endereço mais apropriado: Rua de Trás do Hospício. Este Muniz de Souza é tão cético quanto eu quanto a terra abençoada por Deus e bonita por natureza. Eis que minto, este Muniz De Souza é muito mais cético do que o eu. 

 No livro inteiro ele só faz mostrar os defeitos do Brasil de sua época, não livrando nem a cachaça: “É inegável a má ordem que se observa na fabricação da aguardente, a respeito da destilação, pois não se fazem senão fraca aguardente, que só merece o título de água choca, a qual serve mais de dano a quem a beba que de benefício. A aguardente assim fraca é prejudicial, porque o indivíduo que a bebe encontrando-a tão pouco forte, não se satisfaz com a pequena porção, pelo desejo de ter o estômago quente, o que de certo vai fazer-lhe um grande desconcerto na máquina”.
Pelo menos no item cachaça, parece que se melhorou desde então. Mas somos um povo tão imprevidente que talvez seja esta a razão pela qual o Lá de Cima não nos brindou com terremotos e furacões. Deve ter comentado com São Pedro: “Este povinho, ele mesmo cuida de arrumar suas próprias desgraças. Precisa de ajuda não”. Façam como eu, todo mundo no primeiro andar. Na pisada que a coisa vai, até bolo de goma terá que passar pelo crivo da Anvisa.   

 

2 comentários em “Crônica: (vale a pena ler de novo): Hidrante e cachaça no país da imprevidência

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  1. Excelente crônica, Teles. Me lembro sempre daquelas tiradas do Papa-figo. Quem é nunca deixa de é!

    Cadê Bione. Ainda está vislumbrado com Cuba?

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