The Beatles 60 anos (11) – beatlemania e beatlemaníacas

Numa época em que o alcance dos canais de difusão da indústria entretenimento eram bastante precários, ainda mais na Inglaterra, onde predominava uma única emissora estatal de rádio e TV, a BBC, havia carência de ídolos da juventude, que desde Elvis Presley consumia seu próprio estilo musical. Qualquer banda que se provasse suficientemente hábil em tocar os hits americanos já arrebanhava um séquito de fãs. O Quarrymen, embrião dos Beatles, antes da entrada de Paul McCartney, já era seguido por um fiel grupo de adolescentes, a maioria garotas.

De mais de uma centena de grupos que fazia a cena merseybeat, cinco ou seis destacaram-se, The Fourmost, Gerry and The Pacemakers, Rory Storm and The Hurricanes, Billy J.Kramer and The Dakotas, The Beatles. Nessa corrida em busca do grande prêmio, qual seja, a contratação por uma gravadora, os Beatles chegaram na frente. Não apenas pelo talento e carisma, mas por ter como empresário Brian Epstein, que não dependia de agenciar artistas para ganhar a vida. Epstein administrava a NEMS, estabelecimento que vendia móveis e eletrodomésticos no pavimento térreo, enquanto no primeiro andar funcionava a maior loja de discos do Norte da Inglaterra. Brian a usava como moeda de barganha. Quem gravasse os Beatles teria a certeza de que boa parte da tiragem seria encomendada pela NEMs.

Se o começo foi claudicante para os Beatles, a ascensão na Inglaterra foi fulminante. A partir do sucesso de Please Please Me, sabia-se que surgira um fenômeno nunca visto no reino da Rainha Elizabeth, que completou dez anos de reinado, exatamente em 1963, quando o quarteto de Liverpool explodiu. Em progressão geométrica. O grupo já arrebanhara um séquito fiel de admiradores em Liverpool. Mas a partir do megassucesso de Please Please Me, que vendeu 230 mil cópias na tiragem inicial, os quatros passaram à prioridade na vida dos adolescentes ingleses. O sucesso do single levou à gravação imediata do LP de estreia, Please Please Me, que solidificou a popularidade dos Beatles como o maior fenômeno musical que já grassou a Inglaterra (algo que não foi superado seis décadas mais tarde).

A fama tornou inviável para que os quatro continuassem morando em Liverpool. Como se ainda fossem comuns mortais, Paul, Ringo e George continuavam morando nas mesmas residências simples em que cresceram com a família. John Lennon estava casado com Cynthia Powell, e ainda vivia em Liverpool. Mas o assedio dos fãs aumentava a cada dia.  Faziam cerco às casas onde moravam os ídolos, entravam furtivamente para furtar suvenires. Brian Epstein também sofria do assédio. Garotos e garotas faziam plantão diante da loja dos Epstein quando sabiam que John, Paul, George e Ringo encontravam-se na cidade. Atrapalhavam os negócios. Epstein decidiu que o quarteto fixasse morada em Londres alugou um apartamento de três quartos em Londres, mobiliado apenas com camas, e um aparelho de som.

Paul namorava a atriz Jane Asher, e aceitou o convite para morar na requintada casa da família dela. John, já pai de Julian, alugou um apartamento menor para morar com Cynthia e o filho. Apenas Ringo e George ocuparam o despojado apartamento, mas dotado de um luxo que nunca desfrutaram quando viviam em Liverpool: cada quarto tinha um banheiro.

Quatro meses antes, tanto o empresário, quanto os integrantes do quarteto achavam que sua música não iria além da Inglaterra, ou da Europa. Em 13 de novembro de 1963, The Beatles se apresentou num programa que, na Inglaterra, equivalia em audiência ao Ed Sullivan Show, o Sunday Night at The London Palladium. Quando foi divulgada a participação do grupo no programa, logo cedo os fãs começaram a se agrupar em frente ao teatro, pois Paul, John Ringo e George chegariam à tarde para um ensaio. Mais tarde, quando eles saíram do local foi quase impossível chegar até o carro que os esperavam. Uma multidão de garotas e garotos derrubaram policiais, seguranças, urravam, um escarcéu nunca testemunhado na fleumática capital inglesa. No dia seguinte, o Daily Mail estampava, em letras garrafais, uma manchete com uma única palavra: BEATLEMANIA.

Fãs histéricas, chorando, aos gritos, quando via o ídolo, ou assistiam aos seus shows não eram novidade, Aconteceu isso com Rodolfo Valentino, nos anos 20 e 30, com Frank Sinatra nos anos 40, ou com Elvis Presley nos anos 50. O mais próximo que este tipo de comportamento se aproximou da beatlemania aconteceu com Frank Sinatra, nos anos 40, cujas fãs, chamadas de bobby-soxers (pelas meias de cano curto, que usavam com tênis. Na época da guerra meias de nylon tornaram-se muito caras).

Uma matéria de comportamento publicada no jornal inglês The Guardian, em janeiro de 1945, ressalta o exacerbamento das fãs. Frank Sinatra já era um “senhor” de 30 anos, mas as adolescentes pouco se importavam. Nessa época, casas de espetáculos como o Radio City Music Hal, em Nova Iorque ofereciam programações de vários artistas, que se revezavam, em shows curtos, de manhã até tarde da noite (um formato que se estendeu até meados dos anos 60). Num programa desses, num cinema em Manhattan das 3.500 pessoas que ocupavam as poltronas, 250 recusavam-se a ir embora. Uma fã assistiu a 56 shows de Sinatra. Era comum passarem 12 horas seguidas na poltrona para assistir a todas as apresentações do cantor. Não raro meninas eram levadas ao hospital, com inanição e desidratação.

DE CLEVELAND AO RIO

A beatlemania, diferentemente de outras “ídolomanias”, não se restringiu ao seu país, ou a países próximos, espalhou-se pelo planeta, como se fosse uma mastodôntica comunidade, ou sociedade. Adolescentes conseguiam permissão dos pais para ir à Inglaterra, ou simplesmente poupavam para comprar as passagens e viajavam sem o conhecimento da família. Uma dessas escapadas mais conhecidas, que ganhou as páginas dos jornais, nos dois lados do Atlântico, teve como protagonistas Janice Mitchell e Martha Schindler, de Cleveland, Ohio, ambas com 16 anos.

As garotas juntaram os dólares ganhos com o trabalho de baby-sitter, sacaram um fundo feito pela família para lhes garantir a entrada na faculdade. Em 16 de setembro de 1964, voaram para Londres em busca dos Beatles. Com passagens só de ida. Mal chegaram, dirigiram-se a clubes, e locais onde leram que John, Paul, George e Ringo costumavam ir ao bairro do Soho. Mas nada dos ídolos. Foram a Liverpool, em vão. Nesta época o grupo vivia em turnê. Só aterrissavam em Londres para gravar, e visitavam cada vez menos à cidade natal. Janice e Martha não viram os Beatles, mas viraram notícia. As famílias souberam que estavam na Inglaterra. A polícia foi notificada. Espalharam pela cidade cartazes com fotos das duas, jornais publicaram a história das garotas que fugiram para ver os Beatles. No pequeno apartamento que alugaram, não havia rádio nem TV, portanto não tinham ideia do tumulto que provocaram.  

Janice foi reconhecida na rua por um policial. Ela o levou ao apartamento onde estava Martha. As duas foram conduzidas a uma delegacia, onde Janice mostrou que não tinha desistido. Pediu a um policial que lhe conseguisse um telefone de algum beatle. Em disso, foram entregues à embaixada americana, que as mandou de volta a Cleveland, onde as prenderam, mas por pouco tempo. As meninas estiveram perto de conhecer pelo menos um beatle pessoalmente. Porém só souberam depois. A assessoria do Fab Four ligou para a embaixada e disse que Paul McCartney se prontificou a ir até lá para conversar com a fãs americanas. A gentileza foi recusada.

A notoriedade da fuga das duas adolescentes, enfureceu o prefeito de Cleveland, que disse considerar o rock and roll uma droga para jovens, e decretou que estavam proibidos Beatles, Rolling Stones e qualquer roqueiro de se apresentar na cidade. Esta lei municipal perdurou durante dois anos.

Janice alias ratifica que as garotinhas gostavam mais dos Beatles do que dos Rolling Stones. Três meses antes de sua aventura londrina, em sua cidade natal, graças a um amigo radialista, ela conseguiu chegar ao camarim dos Rolling Stones. Eles se apresentaram no Mike Douglas Show, programa transmitido de Cleveland para o país. Claro, Janice ganhou autógrafos, e cantadas. Saiu ilesa. Ou quase. Foi beijada pelo baixista Bill Wyman.

No final do ano passado, Janice Mitchell resolveu contar sua viagem com a amiga a Londres, no livro My Ticket to Ride: How I Ran Away to England to Meet the Beatles and Got Rock and Roll Banned in Cleveland (A True Story from 1964), ou seja, Minha Passagem Pra Viajar: Como Fugi Pra Inglaterra Para Encontrar os Beatles e Fiz o Rock Ser Banido de Cleveland (Uma História Verdadeira de 1964)

    MISS LIZZIE

 No Brasil, a adolescente carioca Elizabeth Villas-Boas Bravo, adotou o nome “Lizzie” por causa de Dizzy Miss Lizzy (Larry Williams), gravada elos Beatles no álbum Help (1965). Em 1964, quando o grupo de Liverpool tornou-se famoso mundo afora, ela se assumiu beatlemaníaca em tempo integral. Perpetrou algo parecido com o que aprontou uma bobby-soxer americana para assistir shows seguidos de Frank Sinatra. “Ser uma fã devotada dos Beatles no Rio de Janeiro nos anos 60 incluía ver o filme deles tantas vezes quanto fosse humanamente possível. Chegávamos para a primeira sessão às 14h – nos escondíamos no banheiro entre as sessões para não pagar de novo – e ficávamos até a última, quando algum dos nossos pais vinha nos buscar”, conta Lizzie, na introdução do seu livro de memórias beatlemaníacas, Do Rio a Abbey Road (2015).

Em 13 de fevereiro de 1967, com 15 anos, ela embarcou num DC-7 rumo à Londres, onde já encontrava sua amiga Denise Werneck. O objetivo oficial era estudar inglês, mas igual a tantas outras garotas, de tantos outros país, o pretendia era ver os Beatles, se possível tirar foto com algum e, claro, pegar autógrafos. Mal chegou ao hostel onde se hospedaria, Lizzie e Denise, dirigiram-se ao bairro de Saint James Wood, onde se localiza os estúdio da EMI, em Abbey Road. “Na primeira noite em Londres, terça-feira, 14 de fevereiro de 1967, vi os quatro Beatles, Brian Epstein e Mal Evans – o fofo veio me consolar quando me viu chorando depois que o John e o Ringo foram embora, ele me deu um chocolate e disse para eu não chorar porque o John estaria de volta no dia seguinte” (do citado livro).

Quando Denise voltou para o Rio, Lizzie mandou dizer à família que não voltaria. Os pais cortaram-lhes a mesada. Ela passou a trabalhar au-pair, nome que se dava a estudante que passavam a morar em casa de família, cuidavam das crianças, faziam limpeza, em troca de aprender o idioma e ter um teto, comida, e ainda recebendo uma pequena quantia. Lizzie voltou ao Rio, conseguiu um trabalho, juntou dinheiro, e voltou para a Londres. Em 4 de fevereiro de 1968, ela, e uma amiga irlandesa, Gayleen, chegaram a um patamar que nenhuma beatlemaníaca, iria chegar, aliás também raríssimas pessoas, mesmo famosas. Gravaram com John, Paulo, Ringo e George em Abbey Road.

Lizzie era fã hardcore. Mesmo no inverno, ela não se limitava a ver os Beatles chegarem ao estúdio. Esperava que eles saíssem, o que certas vezes aconteceu o dia amanhecendo. A maioria das fãs não encarava o frio o dia inteiro, e ia embora. Naquele dia, como havia poucas meninas, o porteiro permitiu que elas permanecessem no corredor, entre a porta da entrada e a porta de vidro que da v a acesso à gravadora.

“Estávamos conversando quando Paul apareceu de repente, abriu a porta de vidro do lado esquerdo e perguntou: ‘Alguma de vocês consegue sustentar uma nota aguda?’ Eu disse que conseguia. Ele voltou lá pra dentro. Pequeno caos. Várias queriam entrar. Alguém me disse até que eu não podia entrar porque não era inglesa. Respondi que elas podiam entrar à vontade – vocês sabem cantar? Eu entrei. Logo depois perguntei se a Gayleen podia entrar também, e ela veio. Sabia que não podia chamar Denise porque ela não levava jeito pra cantar”.  A música foi Across the Universe, as sessões começaram às 18h45 , com uma pausa às 20h, e continuaram até às 2h da manhã.

A gravação foi lançada no álbum No One’s Gonna Change Our World, um projeto beneficente, com renda revertida para a Unicef. Across the Universe, sem as vozes de Lizzie e Gayleen, seria incluída no álbum Let it Be (1970). O produtor Phil Spector mexeu nessa, e em várias outras canções do LP.

Aquele dia mudaria o curso da vida de Lizzie Bravo. Ela voltou ao Brasil, passou a circular no meio musical do Rio e São Paulo, fez backing vocals em muitos discos, foi fotógrafa, editora, escritora. Seu livro contando a convivência com os Beatles, é um dos que mais trazem fotos inéditas do grupo. Lizzie deu sorte de não existir naquela o culto mórbido às celebridades. Frequentava a casa de Paul McCartney, ali perto do estúdio, ele tinha a liberdade de sair para levar o cachorro para passear, sem pressa, e sem seguranças. Não poucas vezes, algum, ou mais de um. beatle vinha fumar um cigarro fora do estúdio, e batia papo com as fãs. Em 1967, o auge da beatlemania na Inglaterra havia passado, perdeu peso depois que o grupo para de fazer apresentações ao vivo. Lizzie Bravo faleceu aos 70 anos em 2021. Foi casada com Zé Rodrix. A “Esperança de óculos” citada em Casa no Campo (Rodrix/Tavito) é Lizzie Bravo.

DE FÃ A SECRETÁRIA

Freda Kelly, de Liverpool, estava com 16 anos quando começou a frequentar o Cavern Club. Preferia o horário do almoço, porque era mais tranquilo, e os Beatles mais descontraídos, conversavam com a plateia, cantava o que vinha à cabeça dos quatro, e atendiam a pedidos. Ela trabalhava como datilografa numa empresa ali perto, onde ninguém tinha ideia de que existisse um grupo com o nome de Beatles. De tanto ir ao Cavern Club, ela se tornou amiga de John, George, Paul e Pete, e logo conheceria Brian Epstein, que ficou fascinado pela banda, até que decidiu se oferecer para ser empresário do quarteto.

Bobbie Brown era uma garota que fundou o primeiro fã-clube dos Beatles em Liverpool. Freda Kelly a conheceu e começou a ajudá-la. O trabalho consistia basicamente em atrair fãs, a responder cartas, e redigir um fanzine. Uma dia ela estava em Penny Lane, quando encontrou Brian Epstein, que lhe contou que ia assinar um contrato com os Beatles, assim abrir uma nova empresa, e a convidou para ser sua secretária. Freda teve que conseguir convencer o pai a permitir que pegasse o emprego. Ele não gostava de rock, de grupos de rock, e de Brian Epstein. Não apenas por ele ser judeu mas, sobretudo, por ser gay. Ela não deu atenção ao pai. Algum tempo depois, John Lennon perguntou a Freda se sabia que o empresário tinha um segredo. Ela quis saber qual era, e Lennon esclareceu sutilmente: “Digamos que você não teria nada a temer se fosse para uma ilha deserta com ele”. Para se ter uma ideia do nível de preconceito no início dos anos 60.

Freda achava que os Beatles seriam grandes, do porte de um Cliff Richards, o Elvis inglês. À medida que o grupo crescia em popularidade, ela estendia suas funções, a cuidar também da vida pessoal dos quatro, resolvia broncas familiares, frequentava seus parentes, e ainda cuidava do The Official Beatles Fan Club. Que passou a receber milhares de cartas. Workaholic, respondia a todas, muitas vezes indo dormir às cinco da manhã.

Freda trabalhou com os Beatles de 1960 a 1972. Do círculo intimo do Fab Four foi uma das pessoas que teve mais acesso aos bastidores da vida dos quatro, e de Brian Epstein. Quando entendia que o empresário ia ter um encontro no escritório, ainda em Liverpool, ela saia discretamente. E assim discretamente, em relação aos Beatles, comportou-se até muitos anos depois do fim do grupo.  Em 1974, Freda distribuiu, gratuitamente, com os fãs tudo que acumulou dos Beatles, objetos pessoais, autógrafos, fotos raras autografadas. Recusou muito dinheiro por um livro de memórias.

 Somente em 2013, permitiu que fosse rodado um documentário sobre ela, intitulado Good Ol Freda, dirigido por Ryan White. No elogiado doc, que teve músicas dos Beatles, liberada por McCartney, Freda fala bastante, mas fala pouco sobre a intimidade dos seus chefes.  Uma dessas fala das puladas de cerca de John, então casado com Cynthia, o que sempre foi público e notório.

       

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