Caetano Veloso sobre a estreia em Nova Iorque nos anos 80: “Me senti ridículo”

O impecável, em todos os sentidos, show apresentado por Caetano Veloso nesse domingo, 7 de agosto, celebrando suas oito décadas de vida, me fez lembrar de um depoimento dele sobre sua estreia em palcos americanos, em meados dos anos 80. Ele imaginava que fosse encontrar as melhores condições técnicas que Nova Iorque certamente oferecia: “Ledo engano. Já no ensaio notamos a indigência das caixas de som, o reduzido número de microfones, as limitações para mexer nos refletores, também poucos”. Antes do show foi encenada uma peça. O show começou com duas horas de atraso. Tom JObim estava lá, eesperou pacientemente. Já no meio do ensaio, foram interrompidos por uma atriz que vociferou: “Quem são esses?”. Uma vez informada, ela perguntou por Marília Pera (que fez sucesso nos EUA com o filme Pixote, de Hector Babenco).

“Entrei no palco desanimado e tímido, e nem sequer reconheci o nosso conhecido, e já velho, Uns (ele fazia a turnê deste álbum de 1983)”. Nunca sofri tanto num palco. Me senti ridículo, e vi várias pessoas (americanos), dormindo na plateia. Era no Public Theatre, um pequeno teatro do governo do estado, ou da prefeitura. Não sei. Tentei segurar os restos da minha dignidade, e quando disse umas palavras entre as canções que cantava só de violão, me senti pessoalmente salvo diante dos meus próprios olhos, pois notei que ainda podia conversar e expor meu modo de ver as coisas, apesar de me sentir absolutamente desprestigiado. Ao final do show não quis ouvir os elogios de formalidade, nem de outros. Acho que houve um segundo show no dia seguinte. Alguém me apresentou a Joseph Papp, diretor do Public Theatre. Nada mudou. Chorei uma semana.

Ele tece elogios a Nova Iorque “(…) Tudo o que eu espero de uma cidade grande está presente num grau que me convém. Odiei trabalhar lá. Não adiantavam as palavras emocionadas de Arto e Duncan Lindsay que, por ter crescido no Brasil, comoviam-se de alguém que produz uma música que acompanhou sua infância. Eu chorava como se alguém tivesse pegado meu amado show Uns e destruído para sempre. É que eu não sabia ainda que o peso do mercado americano de música popular faz com que, se você não rende muito dinheiro, você seja natural, e gentilmente, tratado como lixo (…)”.

O relato da apresentação inaugural de Caetano Veloso nos Estados Unidos foi contado por ele, em 1990, no release do lançamento nacional do álbum que tem seu nome por título, também o primeiro que fez para o mercado americano. LP elogiadíssimo pela crítica nos EUA, onde já foi além do status de cult, virou referência, um nome consagrado, mesmo sem ser primeiro lugar em plays no Spotfy, ou chegar ao topo do paradão da global da Billboard. Aliás, o show em que americanos dormiram nas poltronas, também recebeu críticas elogiosas da imprensa de NYC.    

2 comentários em “Caetano Veloso sobre a estreia em Nova Iorque nos anos 80: “Me senti ridículo”

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  1. Caetano Veloso não deve se sentir ridículo por uma plateia e crítica acéfalas não terem compreendido a importância do seu ótimo show e disco UNS. Sua obra é mais importante do que a cegueira dessa gente.

    Creio que Caetano e a turmo que fizeram a Tropicália não insuperáveis onde quer que estejam. Sem a presença desse caras a MPB seria estúpida, sem tutano,

    Valeu Teles pela matéria! Excelente!

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